Caros diocesanos. Em reflexões de anos anteriores, sobretudo em 2008, abordamos seguidamente o tema da espiritualidade, que é sempre atual, pois faz parte essencial de nossa vida cristã. Aliás, a pessoa humana é um ser fundamentalmente espiritual. As teorias e práticas que ignoram esta dimensão da vida humana não têm consistência, não respondem aos anseios mais profundos da mesma. A espiritualidade faz parte de seu ser, de sua identidade. É inerente ao seu próprio viver; constituindo-se necessidade fundamental. Por que acontecem tantas atitudes desumanas ao redor de nós? Não seria, sobretudo, por falta de verdadeira espiritualidade no relacionamento entre as pessoas? O tempo da quaresma é propício para aprofundar esse tema.
A espiritualidade é uma realidade concreta, não oposta ao ser físico-biológico, do conceito platônico (separação corpo e espírito), mas inerente ao todo do ser humano: abrange as diversas dimensões de seu viver. Por isso não podemos confundir espiritualidade com espiritualismos desencarnados e descompromissados ou fundamentalismos anacrônicos.
Uma sólida e profunda espiritualidade é exigência prioritária na vida cristã adulta. No ano do tema diocesano: As Vocações, podemos afirmar que ela faz parte da própria essência vocacional dos ordenados, dos consagrados e dos leigos. Por ela a pessoa é guiada pelo Espírito e por Ele configurada com Jesus Cristo, em plena comunhão de amor e de serviço na Igreja. Da espiritualidade depende a fecundidade apostólica, a generosidade no amor aos pobres, a própria atração vocacional sobre as novas gerações (VC 93). Como diz Segundo Galilea, “ela é a seiva da pastoral, da teologia, e da comunidade”. O voluntarismo sem espiritualidade logo se desgasta e perde sua força.
João Paulo II, ao dirigir-se a toda Igreja no início do novo Milênio (NMI), insiste na necessidade de promover uma verdadeira cruzada de espiritualidade de comunhão, espelhada no mistério da Santíssima Trindade. Isso nos faz pensar no tema do ano pastoral de 2011: o Encontro com Jesus Cristo. Por Cristo entramos no seio da Trindade. No início da vida pública de Jesus, o mestre chama seguidores para participarem de sua missão. É um convite para partilhar sua vida: “Vinde e vede!” (Jo 1, 39). Como afirma o Documento de Aparecida: “Jesus e seu discípulo compartilham a mesma vida que procede do Pai: o próprio Jesus, por natureza (Jo 5, 26; 10, 30) e o discípulo por participação (Jo 10, 10)” (DAp 132). A conseqüência desse vínculo torna irmãos e irmãs os que são membros da sua comunidade. Portanto, não se trata de uma vida intimista ou de espiritualismo vago, mas surge com o compromisso de fraternidade e de missão: “para que o seguissem com a finalidade de ‘ser dEle’ e fazer parte ‘dos seus’ e participar de sua missão... O cristão vive o mesmo destino do Senhor, inclusive até a cruz”” (DAp 131 e 140). E a V Conferência Latino-Americana, tendo a eucaristia como fonte e cume de toda atividade missionária, vai ainda mais longe, quando diz: “Invocamos o Espírito Santo para podermos dar testemunho de proximidade que entranha proximidade afetuosa, escuta, humildade, solidariedade, compaixão, diálogo, reconciliação, compromisso com a justiça social e capacidade de compartilhar, como Jesus o fez” (DAp 363).
Os temas pastorais do triênio de nossas atuais Diretrizes Diocesanas abordam muito bem esta espiritualidade encarnada: O Encontro com Jesus Cristo (2011) faz entrar na intimidade com Ele; pelo seguimento, o diocesano decide a vida definitivamente por uma das Vocações (2012) e, como Igreja, participa da Missão comum (2013) de anunciar o Cristo morto e ressuscitado.
Dom Aloísio A. Dilli - Bispo de Uruguaiana
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