sábado, 27 de outubro de 2012

Evangelização: Uma Resposta à "sede" dos homens de todo tempo e lugar

Publicada a Mensagem do Sínodo dos Bispos ao Povo de Deus
Luca Marcolivio
CIDADE DO VATICANO, sexta-feira, 26 de outubro de 2012 (ZENIT.org) – A Mensagem final da XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã foi apresentada nesta manhã na sala de imprensa do Vaticano. O texto foi dividido em 14 pontos.
O documento abre com uma referência ao encontro de Jesus com a Samaritana junto do poço, trazendo a ânfora vazia (cf. Jo 4:5-42): é uma referência para a "sede" dos homens de todos os tempos, muitos “são os poços”, mas é preciso "discernir " para não correr o risco de ruinosas desilusões.
Reconhecendo Cristo como o único portador da "água que dá a vida verdadeira e eterna" e convertendo-se, a mulher samaritana "tornou-se mensageira da salvação e conduz para Jesus toda a cidade”.
Conduzir os homens a Cristo é uma emergência que envolve os cristãos de qualquer tempo e lugar. Hoje, em especial, é necessário “reavivar a fé que corre o risco de ser ofuscada”. Na "mudança de cenários sociais e culturais" todo cristão é chamado a viver de modo renovado a experiência comunitária de fé e o anúncio através de uma evangelização renovada em seu ardor e seus métodos.
A fé se concretiza “no relacionamento que estabelecemos com a pessoa de Jesus, que primeiro vem a nós”.  Na Igreja, "espaço que Cristo oferece na história para encontrá-lo", é importante dar vida a uma “comunidade acolhedora, onde todos os marginalizados encontrem sua casa para experiências concretas de comunhão, que, pelo ardor do amor [...] atraem o olhar desencantado da humanidade contemporânea".
Isso não quer dizer inventar "novas estratégias", mas redescobrir as Escrituras - que os Padres sinodais recomendam a "leitura frequente" - especialmente a "vida de Jesus" e a maneira através da qual as pessoas se aproximaram Dele e por Ele se sentiram chamadas e adaptadas às condições do nosso tempo.
O ponto de partida da evangelização está em "evangelizar a nós mesmos", dispondo-nos a conversão. "Sabemos - escrevem os Padres sinodais - que devemos reconhecer humildemente nossa vulnerabilidade às feridas da história e não hesitar em reconhecer os nossos pecados pessoais".
Ao mesmo tempo, temos que confiar em uma renovação cuja fonte é "a força do Espírito do Senhor" e, portanto não depender exclusivamente da nossa força humana limitada. É nosso dever "vencer o medo com a fé, o desânimo com a esperança, a indiferença com o amor”.
Quando temos consciência de que o Senhor venceu a morte e que Seu Espírito opera poderosamente na história, “não há espaço para o pessimismo”. "A nossa Igreja é viva e enfrenta com a coragem da fé e do testemunho de tantos de seus filhos os desafios da história", lê-se na mensagem,
A evangelização sempre teve como "lugar natural" a família que "é atravessada por toda parte por fatores de crise, cercada por modelos de vida que a penalizam" e, por esta razão, deve ser dado um "tratamento especial" em vista da missão que ocupa na Igreja.
Os Padres sinodais não negligenciaram o fenômeno da ‘convivência’ e as "situações familiares irregulares construídas após o fim de casamentos anteriores: acontecimentos dolorosos em que também sofre a educação à fé dos filhos". A Igreja também ama estes irmãos e as comunidades devem ser “acolhedoras para com aqueles que vivem em tais situações" e apoiar "caminhos de conversão e de reconciliação".
Das comunidades eclesiais emerge acima de tudo, o papel da paróquia que permanece "indispensável", embora "as novas condições possam pedir seja a adaptação em pequenas comunidades seja relações de colaboração em contextos mais amplos".
A paróquia se torna um veículo para a nova evangelização, permeando "as várias, e importantes expressões de piedade popular". Na vida paroquial, cada figura deve receber a justa valorização: do pároco ao diácono, do catequista ao ministro, até o animador.
Sobre a juventude, os Padres sinodais expressaram uma visão "preocupante", mas "longe de ser pessimista”. Sobre os jovens convergem "as forças mais agressivas dos tempos", todavia a eles “deve ser reconhecido um papel ativo na obra da evangelização, especialmente para o seu mundo”.
No mundo da juventude destaca-se em particular a Jornada Mundial da Juventude, mas existem outras realidades "não menos atraentes, como as várias experiências de espiritualidade, de serviço, e de missão".
O mundo da arte é de considerável importância e a via pulchritudinis, o Caminho da Beleza, é considerada "uma forma particularmente eficaz na nova evangelização".
Através do trabalho, acrescentaram os Padres sinodais, o homem torna-se "cooperador da criação de Deus”. Por esta razão, deve ser resgatado "das condições que o tornam algumas vezes um fardo intolerável e uma perspectiva incerta, ameaçado hoje pelo desemprego, especialmente entre os jovens”.
Outro ponto foi dedicado à política "à qual é pedido um empenho de cuidado desinteressado e transparente do bem comum", à liberdade religiosa e ao diálogo inter-religioso, instrumento de paz e contribuição contra qualquer forma de "fundamentalismo" e "violência que abate sobre os que crêem, grave violação dos direitos humanos”.
Agradecendo o Papa Bento XVI pelo “dom do Ano da Fé", os Padres sinodais sublinharam a ligação positiva entre este ano e o 50 º aniversário da abertura do Concílio Vaticano II e 20° do Catecismo da Igreja Católica. "São aniversários importantes – comentaram os padres - que nos permitem reiterar a nossa forte adesão ao ensinamento do Concilio e o nosso firme compromisso de continuar a sua plena implementação”.
Duas expressões de fé mencionadas são a vida contemplativa e o serviço aos pobres, “reflexo de como Jesus é ligado a eles”.
O penúltimo ponto diz respeito às Igrejas em diferentes regiões do mundo, com recomendações específicas para os cristãos em cada continente.. Na África, a Igreja é chamada a ser um ponto de encontro entre as culturas antigas e novas, e mediadora para o fim dos conflitos e violências.
Na América do Norte, onde a secularização é bastante avançada, os cristãos devem ser abertos, especialmente em relação aos imigrantes e refugiados.
Na América Latina prevalece os desafios da pobreza e da violência, juntamente com aqueles - mais recente - do pluralismo religioso.
As comunidades cristãs da Ásia, entre as mais prejudicadas e perseguidas no mundo, sendo a minoria, são encorajadas a firmeza na fé.
A Europa, marcada por uma secularização enraizada e muitas vezes agressiva, deve, através de suas comunidades cristãs, responder a este desafio e superá-lo, encontrando nisto "uma oportunidade para um anúncio mais alegre e mais vivo de Cristo e de seu Evangelho de vida”.
Aos cristãos da Oceania, recomenda-se o "compromisso de pregar o Evangelho e fazer Jesus conhecido no mundo de hoje”.
Uma chamada final feita pelos Padres sinodais à Maria Santíssima, que "nos guia no caminho”. É a Ela, Estrela da Nova Evangelização, que os cristãos confiam, a fim que seja luz na noite do deserto.

Como fazer a Boa Notícia ecoar na vida dos cristãos?

Na vida concreta, evangelização e catequese se misturam. Mas, para torná-las mas frutuosas, é possível e necessário distinguir, pelo menos do ponto de vista didático, estas duas expressões da única dinâmica da fé. A evangelização é o anúncio inculturado e atualizado da Boa Notícia de Deus, assim como foi experimentada e proposta por Jesus de Nazaré. E a catequese é, etimologicamente, fazer com que o Evangelho produza eco, é o aprofundamento mais sistemático e articulado deste anúncio substancial.
O Instrumentum Laboris do próximo Sínodo dos Bispos observa que, não sendo uma ação individual mas  comunitária e ecleisal, a transmissão da fé não deveria se preocupar em encontrar estratégias comunicativas eficazes nem com a seleção dos destinatários, mas refletir adequadamente sobre o próprio sujeito da evangelização (cf. IL, § 39). Ou seja, a Igreja deve refletir e encontrar em si mesma parte das causas que dificultam a aceitação do Evangelho e o seu enraizamento na cultura atual.
Esta é uma tarefa urgentíssima e exigente, mas chamar isso de ‘nova evangelização’ não parece apropriado. A palavra que a Igreja dirige a si mesma, aos diferentes grupos que a compõem, não se chama propriamente evangelização, mas catequese. É verdade que alguém deve repropor permanentemente a Boa Notícia de Jesus Cristo aos membros da Igreja, mas isso configura um processo permanente de educação da fé, com diferentes etapas e recursos variados. E quando se trata de remover os obstáculos que a vida dos fiéis, mas também as velhas tradições e pesadas estruturas, interpõem à credibilidade do seu anúncio, o que se necessita não é de evangelização mas de conversão pessoal e de mudança estrutural, e esse é um percurso que também merece ser pensado com atenção e profundidade. Sendo verdade que a catequese e a conversão não se reduzem à simples escolha de estratégias, também o é que sem caminhos, percursos ou instrumentos adequados a Palavra de Deus não produz eco na vida e na sociedade, e a conversão permanente e necessária da Igreja não passa de intenção vazia e proposta escapista.
No Instrumentum Laboris pede-se também que os Bispos Sinodais se interroguem seriamente se a falta de fecundidade da evangelização e da catequese do nosso tempo não seria acima de tudo um problema eclesiológico e espiritual. Poderia acontecer que os métodos usados pela catequese, no contexto de uma cultura secularizada, não estejam levando a uma fé madura e à sua transmissão. E recomenda-se que os Bispos reflitam sobre como desenvolver uma catequese que articule convenientemente fidelidade à revelação e fidelidade à pessoa humana culturalmente situada; que seja integral na transmissão fiel do núcleo da fé e, ao mesmo tempo, saiba falar às pessoas de hoje, escutando suas interrogações e animando suas buscas (cf. IL, § 104).
Esta é uma questão absolutamente fundamental, mas os problemas começam exatamente na idéia de pessoa humana e no conceito de fé e de revelação que a Igreja veicula! Quem ousar entrar nesse campo se defrontará com ‘minas’ espalhadas por todos os lados, com visões abstratas e tremendamente moralistas, legalistas e institucionalizadas. Mesmo que alguns discursos queiram mostrar diversamente, a prática hegemônica da hierarquia católica demonstra que ela não se dá bem com pessoas humanas e comunidades eclesiais maduras, autônomas, questionadoras, criativas. Da mesma forma, teme projetos de catequese e de evangelização que procuram encarnar a Boa Notícia de Jesus Cristo nas buscas e lutas humanas de hoje e traduzí-la numa linguagem minimamente compreensível ao nosso tempo.
Se a fé dos fiéis católicos e das comunidades eclesiais é infantil, imatura e impotente, isso não se deve prioritariamente à sua falta de boa vontade ou aos seus limites. O problema é estrutural, e tem sua origem numa instituição eclesiástica que prefere repetir fórmulas antigas e vazias de sentido e tem medo da inovação; que canoniza os fiéis obedientes e submissos e estigmatiza aqueles que questionam e propugnam por novas expressões da fé e por sua encarnação na cultura atual, assim como pela renovação de estruturas eclesiásticas anacrônicas e às vezes anti-evangélicas.
Itacir Brassiani msf