sábado, 29 de setembro de 2012

Investir na juventude

Reflexões de Dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte
BELO HORIZONTE, quinta-feira, 27 de setembro de 2012 (ZENIT.org) - A constatação óbvia de que o investimento nas novas gerações modifica cenários do presente e prepara o futuro aponta para uma necessidade urgente: é preciso investir nos jovens. A Jornada Mundial da Juventude, que acontece de 22 a 28 de julho de 2013 no Rio de Janeiro, é uma oportunidade singular para que toda a sociedade exercite essa convicção e adote como prioridade o desafio de investir na juventude.
Nos próximos anos, o Brasil recebe eventos de grande importância cultural, esportiva, econômica e política. Em 2014, será realizada a Copa do Mundo e, em 2016, os Jogos Olímpicos. Estes eventos estão mobilizando governos e os mais diversos segmentos da sociedade. As exigências no âmbito da infraestrutura poderão deixar um legado interessante para a sociedade brasileira. Esses avanços requeridos podem resultar - é o que se espera, sobretudo quando se observa a situação econômica do Brasil no contexto mundial – na superação de carências que amargam a vida de tantos e de muitos modos. Particularmente, há de se pensar nas urgências e necessidades dos mais pobres e dos que são de modo tão desumano sacrificados por exclusões brutais.
O Brasil não pode perder essa oportunidade para crescimentos e conquistas cidadãs. Nesse sentido, também é importante incluir, em lugar especial e com interesse particular, na agenda de grandes acontecimentos, a Jornada Mundial da Juventude(JMJ). A importância desse evento é incontestável quando se considera, por exemplo, a magnitude da congregação de dois a três milhões de jovens, procedentes do mundo inteiro, na Cidade Maravilhosa, para uma semana de eventos, confraternização, espiritualidade e partilha. A juventude, razão de compromisso, prioridade de opção e força determinante nos rumos da sociedade, no presente e no futuro, é um tesouro que precisa de investimentos volumosos e determinantes.
Nesse sentido a imprensa é muito importante. Com sua força própria, seu papel educativo e até regulador da sociedade, a imprensa precisa se juntar aos governos e todos os segmentos para apoiar efetivamente a Jornada Mundial da Juventude. A Igreja Católica do Brasil inteiro está em profunda sintonia com a Arquidiocese do Rio de Janeiro, anfitriã do evento. Ali se  culminará um caminho missionário de forte mobilização da juventude, iniciado em setembro do ano passado,em São Paulo, com a peregrinação da Cruz da JMJ. Eventos, experiências e conquistas maravilhosas estão acontecendo pelo Brasil afora e, antes da Jornada Mundial da Juventude, haverá um momento especial de preparação em todo o país, em cada diocese: a Semana Missionária.
A Arquidiocese de Belo Horizonte já se mobiliza para a realização deste evento, que deve reunir na capital mineira mais de 25 mil peregrinos do mundo inteiro. Todos os jovens de nossas comunidades de fé, suas famílias, já estão convidados a participar, especialmente com a oferta de suas casas para acolher peregrinos. Também será realizado em Belo Horizonte o Congresso Mundial de Universidades Católicas, que deverá reunir cinco mil participantes, entre universitários, professores e reitores. No coração desse evento, acontecerá a Feira Minas Sempre, valorizando e promovendo a cultura, gastronomia, patrimônio imaterial, religiosidade e tradições do povo mineiro.
A opção preferencial pelos jovens na Igreja Católica é uma exigência para alcançar a meta de uma Igreja dos jovens e com os jovens, e destes na Igreja, desenhando com os valores do Evangelho um caminho seguro e de formação integral para a juventude. É hora de dar voz aos jovens, aos eventos e projetos que os envolvem. Torna-se inadiável um coro de Igrejas, governos, escolas e segmentos todos da sociedade para garantir e efetivar o compromisso de investir na juventude. As novas gerações representam um enorme potencial para o presente e o futuro da sociedade. A Igreja tem a tarefa de propor aos jovens o encontro com Jesus Cristo, alicerçando caminhos e desenhando horizontes para que eles estejam presentes em todos os espaços: na esfera política, na produção da cultura, na superação de reducionismos antropológicos, na reversão do quadro horrendo da dependência química, na conquista da educação e de oportunidades, na construção cidadã da sociedade. Apoiar a Jornada Mundial da Juventude é investir nos jovens. Não podemos perder esta oportunidade para abrir uma nova etapa da história.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

O leigo é o coração da Igreja no meio do mundo

Entrevista com Dom Raymundo Damasceno de Assis, presidente da CNBB
Por Thácio Siqueira
BRASILIA, sexta-feira, 28 de setembro de 2012 (ZENIT.org) – O mês de Outubro de 2012 será caracterizado por eventos importantes dentro da Igreja. No dia 11 será a abertura do Ano da Fé convocado pelo Papa Bento XVI com a carta apostólica Porta Fidei; do 7 ao 28 de Outubro acontecerá o Sínodo dos Bispos sobre a Nova Evangelização; além de outras importantes celebrações.
Seguindo essa temática publicamos para os nossos leitores uma entrevista que o Cardeal Dom Raymundo Damasceno de Assis, presidente da Conferência Nacional dos Bispos  do Brasil, concedeu a ZENIT.
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 ZENIT: Como está a abertura do Ano da Fé?
CARD. DAMASCENO: Para a abertura do Ano da Fé no dia 11 de Outubro em Roma, eu estarei presente concelebrando com o Santo Padre. Fui convidado junto com os demais presidentes das Conferências episcopais de todo mundo. Coincide com a celebração de outros três eventos: os 50 anos do início do Vaticano II, os 20 anos do Catecismo da Igreja Católica, e a realização da 13ª Assembleia ordinária do Sínodo dos bispos que tem como tema a nova evangelização para a transmissão da fé.
A Igreja no Brasil vai abrir o ano da fé, como Conferência, oficialmente, em Aparecida, dia 12 de Outubro que é a festa da Padroeira do Brasil. Vai representar a Presidência da CNBB o Cardeal Claudio Hummes, que vai presidir a missa principal em Aparecida, porque nós, a presidência da CNBB, estaremos em Roma.
E a Comissão para a Doutrina da CNBB tem preparado uma série de eventos e também tem tomado uma série de iniciativas que vão sendo realizadas ao longo do ano da fé, e também dos 4 anos de celebração dos 50 anos do Concílio Vaticano II. Dentre elas eu destacaria que já foi realizado um grande seminário, um grande Congresso sobre o Catecismo da Igreja Católica, realizado em Curitiba, agora no mês de Setembro, com a presença do Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, com a participação de mais de 200 pessoas, na Pontifícia Universidade Paranaense dos Maristas. Depois deverá publicar alguns subsídios para ajudar os nossos fieis a aprofundar a sua fé e dar razão também da sua fé.
E estaremos presentes no Sínodo também, com nossos delegados eleitos pela assembleia. De modo que, o Ano da Fé, no dizer do Papa, visa justamente isso: redescobrir a importância da nossa fé em Jesus Cristo. E também fazer dessa fé, uma fé não só professada, mas também vivida no dia a dia.
ZENIT: E nesse cenário de Nova Evangelização, qual é o papel dos Leigos na Igreja aqui no Brasil?
CARD. DAMASCENO: Acho que o Leigo tem um papel fundamental na Nova Evangelização. Primeiro porque é a maior parte da Igreja. A Igreja é o Povo de Deus. Nós sabemos que no meio desse Povo estão os Ministros Ordenados (o Papa, os bispos, sacerdotes,diáconos), há também os religiosos e religiosas... Mas, a grande parte desse Povo de Deus é formada de leigos, de cristãos batizados, crismados... de modo que, a missão também de evangelizar é direito e dever do leigo, em virtude do seu batismo.
 Deve trabalhar, é claro, em comunhão com os Pastores da sua Igreja local, o sacerdote da sua paróquia, mas ele não precisa de licença para exercer a sua missão evangelizadora. É um direito e um dever, decorrente do seu batismo. É claro que ele deve exercer esse seu serviço, a evangelização, sempre em comunhão com a Igreja, com o Pastor local, com o sacerdote... porque a comunhão na Igreja fortalece a missão, e a missão também é para a comunhão. De modo que o leigo não deve e não pode jamais ser excluido desse seu direito e desse seu dever de evangelizar, como membro da Igreja, como Igreja que ele é.
E por isso a importância da formação do leigo, formação de discípulos, e de discípulos missionários como lembra o documento de Aparecida. E um grande desafio para a Igreja na América Latina, e no Brasil, é claro, é a formação do nosso laicado, formação dos verdadeiros discípulos missionários no nosso Continente. E a Igreja está trabalhando. Há uma série de iniciativas de âmbito paroquial, diocesano, nacional, nesse sentido de formar os nossos leigos para que eles possam participar dessa missão de uma maneira mais efetiva; e também porque o leigo é o coração da Igreja no meio do mundo, onde ele, como profissional, como esposo, como pai, é chamado a ser evangelizador, educador da fé, trasmissor da fé, pelo anúncio, pela catequese, mas também pelo seu testemunho de vida.
Isso é fundamental. Sem isso nós não conseguimos realizar esse projeto da Nova Evangelização que é de alimentar nossas comunidades com a Palavra, com os Sacramentos, com a Vida Comunitária, mas também de alcançar, de atingir, aqueles que conhecem pouco Jesus Cristo ou que não o conhecem ou se sentem afastados das nossas comunidades. Então, aí, o leigo é fundamental. E a célula básica onde se dá esse primeiro testemunho de fé e de educação da fé é a família, sem dúvida nenhuma.
ZENIT: Qual é a experiência da Igreja no Brasil referente à Evangelização pelos Meios de Comunicação?
CARD. DAMASCENO: A Igreja no Brasil é pioneira em relação ao uso dos meios modernos de Comunicação. O Rádio, é claro, mais antigo; e a Televisão hoje, a Internet, com seus vários caminhos: Youtube, blogs, redes sociais, etc. Eu acho que a Igreja no Brasil está avançando nesse campo. E isso está contribuindo para a Evangelização sem dúvida nenhuma. Eu creio que é uma contribuição também que os padres sinodais, eleitos pela nossa Conferência, ou nomeados pelo Santo Padre, poderão dar na Assembleia do Sínodo Próximo em Roma.
ZENIT: Nesse contexto qual é a sua opinião sobre o trabalho de ZENIT?

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

PALAVRA DO BISPO -ELEIÇOES MUNICIPAIS

Caros diocesanos.
Hoje desejamos saudar-vos também como caros cidadãos, uma vez que estamos às vésperas das eleições municipais, consideradas como forma de participação democrática pelo voto livre e consciente. Lembra-nos o papa Bento XVI que a sociedade justa, almejada por todos nós, “deve ser realizada pela política” e que por isso a Igreja “não pode nem deve ficar à margem na luta pela justiça” (DCE 28). Este modo de pensar também está expresso nas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja do Brasil – 2008-2010, com esta exortação inquietante: “Uma comunidade insensível às necessidades dos irmãos e à luta para vencer a injustiça é um contra-testemunho, e celebra indignamente a própria liturgia” (n. 178). Portanto, para nós cristãos, participar do processo político-eleitoral torna-se dever de consciência, na tentativa de constituir aliança com os que buscam comprometer-se com a construção de um mundo de justiça, de fraternidade e de paz, muito acima de seus interesses individuais, partidários ou de grupos com objetivos particulares, alheios ao bem comum.
A 50ª Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, ocorrida em abril passado, emitiu nota em que convida os cristãos a participarem com vivo interesse das eleições municipais e indica para o perfil dos candidatos a serem escolhidos: “As eleições são, portanto, momento propício para que se invista, coletivamente, na construção da cidadania, solidificando a cultura da participação e os valores que definem o perfil ideal dos candidatos. Estes devem ter seu histórico de coerência de vida e discurso político referendados pela honestidade, competência, transparência e vontade de servir ao bem comum. Os valores éticos devem ser o farol a orientar os eleitos, em contínuo diálogo entre o poder local e suas comunidades”. E continua a CNBB na sua orientação sobre os critérios na escolha dos candidatos: “Ajudam-nos nesta tarefa instrumentos como as Leis de iniciativa popular 9.840/1999, contra a corrupção eleitoral e a compra de votos, e 135/2010, conhecida como Lei da Ficha Limpa, cuja constitucionalidade foi confirmada pelo Supremo Tribunal Federal. Aos Eleitores cabe ficarem de olhos abertos para a ficha dos candidatos... Desta forma, dá-se importante passo para colocar fim à corrupção, que ainda envergonha o nosso país”. A Nota da CNBB não se refere apenas à participação nas próximas Eleições Municipais. Ela convida os cidadãos para um envolvimento político-participativo mais amplo, que vai além do voto, quando afirma: “O exercício da cidadania, no entanto, não se esgota no voto. É dever, especialmente de quem vota, a corresponsabilidade na gestação de uma nova civilização, fundamentada na defesa incondicional da vida, desde a fecundação até a morte natural; na promoção do desenvolvimento sustentável, possibilitando a justiça social e a preservação do planeta”.Não faltam exortações do magistério da Igreja, que incentivam, através dos tempos, a corresponsabilidade política dos fiéis. Assim o papa Paulo VI já mostrava que é uma questão de caridade o exercício da cidadania: “A política é uma maneira exigente de viver o compromisso cristão ao serviço dos outros” (OA 46).Que Nossa Senhora Aparecida abençoe o povo brasileiro e ilumine candidatos e eleitores no exigente caminho da verdadeira política. Que as eleições não sejam motivo de conflito ou separação, mas momento de corresponsabilidade política em vista da construção de um mundo mais justo, fraterno e feliz.
Dom Aloísio A. Dilli
Bispo de Uruguaiana

Servir na sabedoria e paz

Reflexões de Dom Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de JaneiroRIO DE JANEIRO, quarta-feira, 26 de setembro de 2012 (ZENIT.org) - Apresentamos aos nossos leitores a reflexão de Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, sobre a liturgia do domingo passado, XXV domingo do tempo comum.

A cada domingo, a Palavra de Deus nos ilumina para que possamos entrar numa séria vida de conversão para que, acolhendo a graça de Deus, sermos sinais da vitória do Ressuscitado. Também neste XXV Domingo do Tempo Comum. “A sabedoria que vem do alto é, antes de tudo, pura, depois pacifica, é modesta, conciliadora, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade e sem fingimento” (Tg 3, 16).
Quem ouve e reza a Palavra de Deus sabe reconhecerem Jesus Cristoo verdadeiro servidor dos mais necessitados. Este ensinamento Ele nos deixa como legado, ou seja: servir. E nós temos a missão de proclamar que a Igreja é serviço em todos os âmbitos. O cristão não deve ficar disputando lugares ou honrarias. O fiel batizado deve ser o último e não atropelar pessoas e/ou etapas para ser o primeiro. A competição deve ser convertida em doação total de si – serviço: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos”. (Mc 9, 35)
Na Primeira Leitura deste domingo, o livro da Sabedoria, (Sb 2, 12.17-20) dá uma resposta aos “materialistas” da época e de hoje, que podemos encontrar em Isaías 22, 13: “comamos e bebamos, porque amanhã morreremos!” Esta expressão continua sendo repetida desde o tempo de Isaías até os nossos dias. Trata-se da cultura do materialismo, que prega em seus pseudo-dogmas a negação da religião, de Deus e da vida futura. Pelo fato de os israelitas serem fiéis à própria lei, eram perseguidos e zombados por não compactuarem com o estilo materialista daquela região.
Os materialistas consideram um absurdo acreditar em religião, em Deus e na vida futura. Para eles isso é algo ultrapassado. Para eles, o fato de existir um grupo de israelitas fiéis à própria lei, os incomodava. Portanto, perseguiam seus próprios irmãos.
Os “ímpios” não conseguem se adaptar na convivência com o “justo”. Daí decidem: “Armemos ciladas contra o justo... provemo-lo por ultrajes e torturas... condenemo-lo a uma morte infame”. São palavras dirigidas aos israelitas que viviam em Alexandria, no Egito. Por isso, um olhar hermenêutico já nos mostra no horizonte o que acontecerá com Jesus Cristo. Ele também sofreu perseguição pelos próprios irmãos na fé. O que aconteceu naquela época se repete ainda hoje com todos que são transparentes em sua justiça e bondade.
Já a Segunda Leitura deste domingo (Tg 3, 16 - 4,3) nos convida a um olhar clarividente e meditativo sobre a “sabedoria que vem do alto”, diferente da dos homens, muitas vezes sustentada pela inveja, calúnia e desejo de alimentar as próprias vaidades. A sabedoria divina se manifesta no homem que ama, acolhe, é misericordioso, se compadece, que compreende e constrói a paz.
São Tiago, na segunda parte desta perícope, apresenta os motivos, as causas que trazem tantas discórdias tanto entre pessoas como entre as comunidades. Ele denuncia a ganância, o acúmulo dos bens materiais, que leva à divisão e amargura. Daí nasce a cultura da dominação e competição, causando uma corrida como que uma maratona para conquistar os primeiros lugares. Mas os que seguem a “sabedoria que vem do alto” conseguem eliminar pela raiz a causa de tantas disputas e guerras mesquinhas.
O final do texto mostra a vaidade humana. O homem pede a Deus para que capriche nos seus interesses particulares: isto é egoísmo. Devemos pedir a Deus a sabedoria e o discernimento para perceber que nossa maior riqueza é o serviço aos irmãos.
O Evangelho que a liturgia nos convida a refletir neste XXV domingo (Mc 9, 30-37) traz uma continuidade com o que refletimos no domingo passado: a identidade de Jesus. Jesus sabia que seus próprios discípulos tinham dificuldadeem compreendê-lo. Portanto, ele insiste por três vezes em tratar de sua verdadeira identidade. É algo sério esta repetição. A de hoje é a segunda vez. Ele anuncia seu sofrimento, perseguição e morte, porém anuncia também sua ressurreição. Ao mesmo tempo tenta fazer com que os discípulos se sintam inseridos neste roteiro, a fim de dar suas próprias vidas.
Os discípulos “não entendiam estas palavras e tinham medo de pedir-lhe explicações” (vv. 30-32). Isso porque talvez eles imaginassem um Messias com poder temporal. Como, então, aceitar o que Jesus diz: perseguição e morte! Isto é uma derrota! Eles nem sequer tinham coragem de questionar Jesus sobre os fatos futuros.
Por isso, a segunda parte do Evangelho mostra a pequenez do pensamento dos discípulos que ficam presos a discussões mesquinhas, disputando qual deles seria o primeiro. Jesus sabe muito bem o que se passa na mente deles e declara a posição de cada um: “Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (v. 35)
Na nossa cultura hodierna, também vemos o culto aos privilégios, títulos honoríficos, a existência de diferentes classes, a disputa pelas honrarias e primeiros lugares. Para adquirir uma verdadeira identidade cristã é necessário despojar-se e viver na simplicidade como uma criança. A comunidade cristã é o “campo” do amor, da acolhida, da solidariedade e da paz!
Jesus sempre demonstrou muita ternura pelas crianças. “Quem acolhe um destes pequeninos em meu nome, a mim acolhe” (vv. 36-37). Naquele tempo as mães apresentavam seus filhos para que Jesus os acariciasse: “Deixai que as crianças venham a mim e não queirais impedi-las, porque o reino do céu pertence a quem for semelhante a elas”. Com isso Jesus mostra que as crianças são como que um símbolo dos valores do Reino. Todos, portanto, devem se abrir à cultura da “leveza”, compreendendo a fragilidade que cerca o ser humano. Com este gesto significativo de Jesus, Ele ensina aos discípulos a cultura da acolhida aos mais frágeis e marginalizados e também os sentimentos de simplicidade com que devemos estar revestidos.
Sabemos que uma criança é alguém que depende completamente dos outros, sejam os pais, irmãos ou quem guarda custódia sobre ela. Daí a ideia de simplicidade.
Ser simples para que, seguindo Jesus saibamos nos colocar sempre como servidores, tendo um coração de paz que a semeie por onde passa. Isso nos faz sábios e testemunhas do Cristo. Perseguições sempre tivemos e teremos, o que demonstra estarmos no caminho do Senhor.
Eis os tempos que supõem de nós o aprofundamento da fé para uma nova evangelização de nossa sociedade em mudança.
† Orani João Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

terça-feira, 25 de setembro de 2012

CONCILIO VATICANO II parte 2

Quatro Constituições Conciliares (Parte II)
Mons. Vitaliano explica as quatro Constituições do Concílio Vaticano II
CRATO, segunda-feira, 24 de setembro de 2012 (ZENIT.org) – Publicamos a seguir a segunda parte do artigo que Mons. Vitaliano escreveu na sexta-feira, sobre as quatro Constituições do Vaticano II. Para ler a primeira parte clique aqui (http://www.zenit.org/article-31359?l=portuguese)
Constituição Dogmática sobre a Revelação: Dei Verbum, 18 de Novembro de 1965.
Documento de fundamental importância para a compreensão da Palavra de Deus e da relação com o Magistério da Igreja. Deus tem falado aos homens. O Cristo, Palavra (Verbo) de Deus, por quem todas as coisas foram criadas, é a plenitude da Revelação. A Constituição mostra como na Sagrada Escritura se encontra a Palavra de Deus fixada por escrito sob a inspiração do Espírito Santo, enquanto que a Palavra de Deus, confiada por Cristo aos Apóstolos, é transmitida pela Tradição integralmente aos sucessores dos apóstolos. A Hierarquia tem a tarefa de interpretar autenticamente a Palavra de Deus. Este aspecto é analisado no segundo capítulo (n. 7-10). O problema que mais ocupou a Assembleia Conciliar foi exatamente o das fontes da Revelação: só a Sagrada Escritura ou também a Tradição (a interpretação da Igreja ao longo dos séculos). O texto estabeleceu que existem duas fontes da Revelação: a S. Escritura e a Tradição da Igreja. Alguns passos fundamentais: "Relação entre a Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura. A Sagrada Tradição, portanto, e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito, decorrente ambas da mesma fonte divina, fazem como que uma só coisa e tendem ao mesmo fim. A Sagrada Escritura é a palavra de Deus enquanto que foi escrita por inspiração do Espírito Santo; a Sagrada Tradição, por sua vez transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos...  Disso resulta que a Igreja não tira só da Sagrada Escritura a sua certeza a respeito de todas as coisas reveladas.. Por isso, ambas devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de piedade e reverência (n. 9). Relação de uma e outra com a Igreja e com o Magistério eclesiástico.  A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da palavra de Deus, confiado à Igreja...Porém, o encargo de interpretar autênticamente a palavra de Deus escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo.. Este magistério não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido... É claro, portanto, que a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, segundo o sapientíssimo desígnio de Deus, de tal maneira se unem e se associam que um sem o outro não se mantém, e todos juntos, cada um a seu modo, sob a ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas”.  Finalmente, a Constituição enfatiza o papel fundamental que deve ter as Escrituras em toda a vida da Igreja.
Constituição sobre a Igreja no mundo do nosso tempo: Gaudium et Spes, 7 de Dezembro de 1965.
Esta Constituição está formada por uma primeira parte sobre a vocação do homem, e por uma segunda sobre alguns problemas mais urgentes. Uma introdução descreve primeiramente a condição do mundo de hoje, com as suas profundas transformações, as suas esperanças e os seus medos. A Igreja quer captar tudo o que seja sinal da presença e da vontade de Deus nos acontecimentos, nas exigências e aspirações dos homens. A primeira parte responde a algumas perguntas: o que a Igreja acha da dignidade do homem, o que se deve recomendar para a edificação da sociedade moderna, qual é o significado último da atividade humana. Finalmente, no último capítulo discute o papel que a Igreja quer desempenhar no mundo contemporâneo.
A segunda parte estuda sucessivamente a dignidade do matrimônio e da família, a promoção da cultura, da vida econômica e social, a vida da comunidade política, e por fim a paz e a promoção da comunidade das nações.
A Igreja em tudo isso, ainda que consciente de suas limitações, propõe-se a esta finalidade: ajudar com a sua luz onde for possível; ajudar com a sua esperança; a sua mão na mão dos homens, abertamente, para salvar o homem.
* Mons. Vitaliano Mattioli, nasceu em Roma em 1938, realizou estudos clássicos, filosóficos e jurídicos. Foi professor na Universidade Urbaniana e na Escola Clássica Apollinaire de Roma e Redator da revista "Palestra del Clero". Atualmente é missionário Fidei Donum na diocese de Crato, no Brasil.
[Trad. TS]
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Sobre educação moral
Reflexões de Dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo de Belo Horizonte
BELO HORIZONTE, segunda-feira, 24 de setembro de 2012(ZENIT.org) - Os processos educativos são decisivos nos rumos e conquistas de uma sociedade. Esta é uma convicção incontestável que deve incentivar o compromisso de todos com o ensino. Cuidar da educação é tarefa da família, particularmente das instituições educacionais, mas também dos clubes recreativos, empresas, institutos, prefeituras, igrejas, meios de comunicação e até dos organizadores de uma simples festa popular, realizada na rua de um bairro.
A condição determinante dos processos educativos é uma compreensão que deve ser assumida em sentido de alerta, permanentemente, motivando avaliações constantes, em todas as instâncias. Assim, são desenvolvidas dinâmicas que qualificam pessoas e os diferentes segmentos da sociedade. Uma preparação necessária para exercícios profissionais e cidadãos com resultados mais efetivos, que são sustentáculos da justiça e da paz.
É verdade que os processos educativos em curso na sociedade, nas instituições e instâncias todas, estão atendendo necessidades e criando novas condições. Em se considerando a conjuntura econômica atual na sociedade brasileira,  as oportunidades de avanços e desenvolvimentos, não se pode deixar escapar esse horizonte promissor. Em qualquer tempo, para cada um e para o conjunto da sociedade também, valha como advertência aquele velho e sábio ditado: “cavalo arreado só passa uma vez”.
Oportunidades perdidas trazem atrasos e prejuízos. Muitos são até irreparáveis. É necessário ouvir sempre os analistas e críticos quanto às consequências de descompassos nos processos educacionais, como retrocessos culturais e o alto preço pago por defasagens na infraestrutura. Devemos ouvi-los, também, para saber o que se pode ganhar a partir do desenvolvimento da educação, seja no campo econômico, cultural e social. O exercício de escuta é indispensável para que a crítica e o debate de ideias impulsionem posturas e comprometimentos mais adequados.
É exatamente devido à falta desse necessário embate de ideias, do melhor conhecimento e tratamento da realidade que a sociedade brasileira sofre com as carências no conjunto dos seus processos educativos.  No Brasil, onde esses processos são qualificados - graças a Deus, neste cenário de déficit temos exemplos exitosos - o rendimento é notável, metas são alcançadas e passos largos são dados no desenvolvimento e nas conquistas. É preciso avolumar o coro das vozes que estão repetindo a antífona de que é preciso investimento e maior qualificação nos processos educativos. Caso contrário, nossa sociedade não vai acompanhar, nos diferentes âmbitos, a rapidez, a multiplicidade e as exigências próprias deste terceiro milênio.
Não se pode continuar a perder por falhas na educação. Nas dinâmicas do cotidiano, são imensuráveis os prejuízos de cidadãos que mantêm uma visão acanhada, pouco proativa, gerando uma espécie de malemolência e a falta de ousadias. O resultado é a incompetência para fazer frutificar o que se tem como oportunidade, o que a natureza dá e o que a inteligência pode fazer.
Indispensável caminho para alavancar os processos educacionais na sociedade é o investimento na formação moral de todo cidadão. Neste sentido, o contexto atual presenteia a sociedade brasileira com uma oportunidade ímpar para dar saltos qualitativos quanto à moralidade. O que está acontecendo na Corte Suprema deve ser acompanhado e percebido como esperança para superar dinâmicas de impunidade, aperfeiçoar funcionamentos que extirpem a corrupção, nas suas mais intoleráveis situações.
É preciso estar atento para a relação deste e de outros processos com a formação. Um autêntico desenvolvimento só pode ser completo se incluir a educação moral. Por falta da moralidade, multiplicam-se os cenários contrários ao bem e à verdade. A edificação da sociedade justa depende da educação moral.
Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte

CONCILIO VATICANO II

Quatro constituições conciliares (Parte I)
Mons. Vitaliano explica as quatro Constituições do Concílio Vaticano II
Mons. Vitaliano Mattioli*
CRATO, sexta-feira, 21 de setembro de 2012 (ZENIT.org) - O Papa Bento XVI na Missa celebrada em Frascati (Itália) no dia 15 de julho de 2012 durante a homilia se expressou assim: “Os Documentos do Concílio contém uma riqueza enorme para a formação da nossa consciência”.
Com certeza o Concílio foi uma grande graça para a Igreja, mas ao longo destes 50 anos desde a sua abertura, nem sempre se ouviram vozes de acordo sobre a sua interpretação e atuação. Mais de uma vez o Vaticano foi apresentado como  uma linha de demarcação entre o pré e o pós-Concílio, ou seja numa linha de descontinuidade. Nada podia estar mais errado. Por isso Bento XVI poucos meses depois da sua eleição pontifícia considerou oportuno chamar a atenção sobre a correta interpretação com que se deve ler este Concílio. Aproveitou a ocasião de cumprimentos de Natal apresentando-lhes o Sagrado Colégio dos Cardeais, no dia 22 de dezembro de 2005.
Depois da primeira parte, começou a falar sobre o Concílio. Assim se expressou: “O último acontecimento deste ano, sobre o qual gostaria de me deter nesta ocasião, é a celebração do encerramento do Concílio Vaticano II, há quarenta anos. Tal memória suscita a interrogação: qual foi o resultado do Concílio? Foi recebido de modo correcto? O que, na recepção do Concílio, foi bom, o que foi insuficiente ou errado? O que ainda deve ser feito? Ninguém pode negar que, em vastas partes da Igreja, a recepção do Concílio teve lugar de modo bastante difícil... Surge a pergunta: por que a recepção do Concílio, em grandes partes da Igreja, até agora teve lugar de modo tão difícil? Pois bem, tudo depende da justa interpretação do Concílio ou como diríamos hoje da sua correcta hermenêutica, da justa chave de leitura e de aplicação. Os problemas da recepção derivaram do facto de que duas hermenêuticas contrárias se embateram e disputaram entre si. Uma causou confusão, a outra, silenciosamente mas de modo cada vez mais visível, produziu e produz frutos. Por um lado, existe uma interpretação que gostaria de definir "hermenêutica da descontinuidade e da ruptura"... Por outro lado, há a "hermenêutica da reforma", da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja, que o Senhor nos concedeu; é um sujeito que cresce no tempo e se desenvolve, permanecendo porém sempre o mesmo, único sujeito do Povo de Deus a caminho. A hermenêutica da descontinuidade corre o risco de terminar numa ruptura entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar”.
Para facilitar "Hermenêutica da Reforma," Eu quero apresentar, ainda que de forma condensada, as 4 constituições conciliares. Em outra ocasião escrevi sobre os 9 documentos, clique aqui para ler.
A Constituição sobre a Sagrada Liturgia: Sacrosanctum Concilium, 4 de dezembro de 1963
A Constituição se limitou a definir as orientações para a reforma, cuja execução foi confiada em grande parte às Conferências episcopais (esta é a primeira atribuição de uma competência jurídica dada às Conferências Episcopais pelo Concílio). Esta Constituição fixa os princípios gerais da reforma e apresenta um caráter doutrinal. Faz ver como a liturgia é “o cume ao qual tenda a ação da Igreja, e ao mesmo tempo a fonte de onde mana a sua força" (n. 10). Fala sobre a participação ativa dos leigos: Discussão sobre a participação ativa dos leigos: “Os cristãos não assistam a este mistério de fé como estranhos ou expectadores mudos, mas participem na ação sagrada, consciente, piedosa e ativamente” (n. 48). Desenvolve claramente uma noção de Povo de Deus, no meio da qual a Hierarquia tem uma função de serviço. O Documento fala também da música sagrada, dos sacramentos, da liturgia das Horas, do ano litúrgico e da reforma do calendário. Paulo VI com o Motu Próprio ‘Sacram Liturgia’ (25 de Janeiro de 1964) deu início a uma primeira série de reformas.. Com a Constituição Apostólica "Missale Romanum" (3 de Abril de 1969) entra em vigor a "Instrução Geral do Missal Romano e Introdução ao Lecionário". Paulo VI, com a Carta Apostólica "Mysterii Paschalis" estabeleceu as normas para a reforma do calendário e do ano litúrgico.
A Constituição Dogmática sobre a Igreja: Lumen Gentium, 21 de novembro de 1964.
Este documento envolve toda a Igreja na sua estrutura e na sua atividade. O primeiro capítulo fala do mistério da Igreja que “é, no Cristo, como que o Sacramento, ou seja, o sinal e o meio da união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (n.1, e descreve a relação da Igreja de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo. O segundo capítulo apresenta a Igreja como Povo de Deus, constituído pelo Batismo e do qual a cabeça é Cristo, a caminho através da história e destinado a reunir todos os homens. Lembra os laços entre a Igreja e os Cristãos não católicos, seus relacionamentos com os não-cristãos e afirma os caráter missionário do Povo de Deus. Apresenta em seguida os membros do Povo de Deus: a hieraquia (bispos, sacerdotes e diáconos) e os leigos. O terceiro, sobre a hierarquia, afirma a colegialidade do episcopado (os bispos sucessores dos apóstolos, ao redor do Papa sucessor de Pedro, seu chefe, receberam de Cristo a responsabilidade da Igreja universal) e decide que os Episcopados locais podem restaurar o diaconado como uma Ordem permanente, e conferir esta Ordem a homens casados. O capítulo quarto, sobre os leigos, mostra a eles a participação na vida e na missão da Igreja (culto, proclamação do Evangelho, orientação para o Cristo da vida e das atividades de toda a humanidade). O quinto capítulo fala da vocação à santidade por parte de todos os membros do Povo de Deus. O capítulo sexto, sobre os religiosos, explica a função da vida religiosa em relação à vida espiritual de todo o povo cristão. O sétimo capítulo apresenta a Igreja, peregrina na terra, para a vida eterna, em comunhão com a Igreja celeste. Finalmente o capítulo oitavo apresenta a função materna da Virgem Maria no mistério de Cristo e da Igreja. Está em sintonia com este texto que Paulo VI, no dia 21 de novembro de 1954, deu à Virgem o título de Mãe da Igreja, porque ela, em quanto mãe de Cristo, é também mãe de todo o Povo de Deus, seja dos fiéis como dos pastores.
Ao documento foi adicionado por vontade explícita de Paulo VI, uma "Nota Explicativa Prévia", contendo alguns fundamentos sobre o texto para evitar interpretações erradas. Esta Nota deve ser considerada parte integral do mesmo Documento.

domingo, 23 de setembro de 2012

Comemorar os 50 anos do Concílio Ecumênico de 1962-65

23/09/2012


Por Pedro A. Ribeiro de Oliveira*


O verbo “comemorar” significa “juntar-se a outras pessoas para fazer a memória” e traz implícito o sentimento de alegria que perpassa esse encontro. E disso se trata: trazer para o tempo atual aquele grande evento de meio século atrás. Habitualmente se identificam os concílios pelo local – e não pela época – de sua realização. Mas no caso desta comemoração é muito mais importante datar o evento do que sua localização na cidade-estado do Vaticano. Neste breve artigo quero destacar seu caráter de mudança de época.

Os anos de 1945 a 1973 ficaram conhecidos como “anos dourados”, porque entre o término da guerra e a primeira crise do petróleo o desenvolvimento das forças produtivas provocou profundas transformações sociais, culturais e políticas em todas as partes do mundo. É nesse contexto que se inscreve a grande reunião do episcopado católico, a pedido dos Papas João XXIII e Paulo VI, para “colocar em dia” a Igreja Católica nesse mundo que iniciava seu processo de globalização. Por mais que a “tradição dos Pios”[1] ainda fosse hegemônica entre o clero encastelado nas cúrias eclesiásticas, já era evidente seu anacronismo diante do mundo moderno prestes a entrar na revolução cultural que eclode em 1968. As pesquisas sócio-religiosas apenas confirmavam o que qualquer pessoa atenta aos fatos podia observar: a crescente desafeição dos fiéis pelas normas e doutrinas em vigor na Igreja católica romana. Foi o abalo institucional provocado pelo caráter ecumênico do concílio que permitiu seu diálogo com a modernidade.

O concílio foi ecumênico não só por reunir bispos de todo o mundo – inclusive estadunidenses incapazes de se expressarem em latim – quanto por seu espírito de abertura a outras Igrejas cristãs. A velha cúria romana, que se via e era vista como indispensável ao Papado – e por conseguinte, à unidade da Igreja universal – de repente se vê ultrapassada pela colegialidade episcopal. A aliança estratégica formada pelos “padres conciliares” em sintonia com o papa derruba a fortaleza da cúria romana e faz avanços notáveis no campo teológico, bíblico, litúrgico e sócio-político. Foi como um arado que desmancha os restos da antiga plantação ao preparar o terreno para nova semeadura. E assim, passados apenas três anos, novos campos estavam semeados e já começavam a frutificar.

As Igrejas da América Latina e Caribe receberam os frutos do Concílio ecumênico não somente para saboreá-los, mas também para deles tirarem novas sementes a serem plantadas em seus campos. Eram tempos difíceis, marcados por ditaduras militares, violações de direitos humanos, resistência armada e, principalmente, o esmagamento dos direitos dos pobres. A assembleia episcopal de Medellín, em 1968, traça as diretrizes pastorais que adaptarão aquelas sementes aos solos de Nossa América. Em pouco tempo elas desabrocham num novo modo de ser Igreja [2] que engloba as Comunidades Eclesiais de Base, as Pastorais sociais e as Conferências episcopais; a teologia que lhe serve de fundamento será conhecida por sua proposta de Libertação face às estruturas opressoras em vigor em nossas sociedades; enfim, a explicitação da opção preferencial pelo pobres –presente já na própria convocação do Concílio – vem completar o quadro estrutural desse catolicismo recomposto desde suas fontes neotestamentárias rejuvenecidas pelo Concílio de 1962-65.

Quando tudo indicava que a Igreja católica, renovada desde dentro, partiria em missão no mundo conturbado pela “guerra fria” para proclamar a boa nova da Paz com Justiça, ocorre o inesperado retorno da antiga aliança entre o Papa e a Cúria Romana, enfraquecendo-se a colegialidade episcopal universal e o ecumenismo. Com efeito, apesar de afirmarem sua adesão à teologia consagrada pelo Concílio, os dois últimos papas governaram a Igreja como se lhes bastasse o apoio das congregações romanas. Nesse contexto, as Igrejas particulares que seguem levando em frente as propostas do Concílio se vêem marginalizadas por Roma, como se não fossem, também elas, concretizações legítimas da mesma Igreja católica.

É portanto muito oportuno – e muito bom! – promover encontros e reuniões onde se torne presente, ao fazer-se a memória, o evento do Concílio Ecumênico de 1962-65.

*Sociólogo, professor no Mestrado em Ciências da Religião - PUC-Minas, consultor de ISER-Assessoria, membro da diretoria da SOTER e da coordenação nacional do Movimento Fé e Política.
[1] Uso a expressão de J. B. Libanio para referir-se ao catolicismo em vigor desde Pio VI até Pio XII (1775-1958).
[2] Essa expressão foi usada no documento nº 25 da CNBB sobre as CEBs (1982, 5). Sua recepção nas próprias comunidades foi tão boa que se tornou como que o seu lema até os dias de hoje.


II ENCONTRÃO DE JOVENS NA PAROQUIA SÃO JOSÉ

No sábado, dia 22 de setembro, aconteceu na paróquia São José, mais um ENCONTRÃO DE JOVENS, com o intuito de reunir, integrar e preparar a juventude para a JORNADA MUNDIAL DE JUVENTUDE.
Com o tema: O amor de Deus por nós, Luiz Carlos, jovem catequista prendeu a atenção de todos. Com momentos de muita alegria e vibração todos participaram intensamente do encontro. A missa de encerramento aconteceu na Matriz junto com a comunidade. Nossa paróquia mais uma vez está animando a nossa juventude. Os JOVENS.COM, grupo da Comunidade Santa Rita de Cássia participaram com muita vivacidade de todas as atividades.Vejamos algumas fotos:







sábado, 22 de setembro de 2012

Por que a confissão ao menos uma vez por ano?


ROMA, sexta-feira, 21 de setembro de 2012 (ZENIT.org) -
Este artigo abre a coluna Liturgia e Vida Cristã, a novidade semanal de ZENIT,
aos cuidados do pe. Edward McNamara, LC, professor de teologia e diretor espiritual.

Muitos sacerdotes recomendam a confissão pelo menos uma vez ao ano, conforme é indicado pelo número 2042 do Catecismo da Igreja Católica. Outros sacerdotes dizem que a confissão não é necessária se não se cometeram pecados graves. Assim, quem avalia que não cometeu nenhum pecado grave acaba não se confessando nem mesmo uma vez por ano. Pe. Edward, qual é a sua opinião a este propósito?
Pe. Edward: Eu acho que podemos encontrar a resposta olhando para os diferentes contextos.
Em primeiro lugar: "Os fiéis são obrigados a confessar, de acordo com tipo e número, todos os pecados graves cometidos depois do batismo e ainda não diretamente perdoados pelo poder das chaves da Igreja, nem acusados ​​em confissão individual, dos quais tenha consciência depois de um diligente exame".
"§ 2. Recomenda-se aos fiéis confessar também os pecados veniais".
O cânon 989 indica que o tempo máximo para cumprir a exigência é de um ano. Muitos intérpretes do direito canônico consideram que a obrigação se aplica apenas aos pecados mais graves. Supondo-se que uma pessoa não tenha cometido pecados mortais, este cânon não se aplicaria a ela.
Vemos também que o catecismo, no número 1457, menciona o cânon 989 e aborda a necessidade de confessar os pecados graves antes de receber a comunhão.
No número 2042, o catecismo se refere de novo ao cânon 989 na nota de rodapé, sob a perspectiva da vocação do homem e da sua vida no espírito, considerando o segundo preceito como um requisito mínimo para o crescimento espiritual.
Por esta razão, o segundo preceito não fala de "pecados graves ou mortais" e é prescritivo, havendo pecado grave ou não. Portanto, o número 2042 do catecismo diz que a confissão anual "garante a preparação para a eucaristia por meio da recepção do sacramento da reconciliação, que continua a obra de conversão e de perdão do batismo".
Aqui, a confissão não é vista apenas como um meio necessário para sermos absolvidos do pecado mortal, mas como uma das formas habituais, se não necessárias, para o progresso espiritual.
O compêndio do catecismo também não faz nenhuma menção à necessidade de pecado mortal para que a confissão seja obrigatória ao menos uma vez por ano. No número 432, ele formula o preceito da seguinte forma: “Confessar os pecados, recebendo o sacramento da reconciliação, pelo menos uma vez ao ano”.
Assim, tanto o catecismo quanto o compêndio descem da teoria canônica à realidade da vida cristã. A ideia de que a obrigação canônica de se confessar uma vez por ano exista somente em caso de pecado grave é boa no papel, mas a experiência de muitos diretores espirituais nos ensina que é raro que se evite o pecado grave durante um ano ou mais do que um ano.
Sem dúvida, nos casos em que uma pessoa consegue evitar os pecados graves no decorrer de vários anos, é porque ela regularmente e frequentemente confessa os seus pecados veniais e usa o sacramento da reconciliação para crescer na sensibilidade da consciência e no amor de Deus. Essas almas também usam outros meios de progresso espiritual, como a oração frequente, comungar regularmente e fazer obras de caridade.
Temos que notar ainda que o dever de se confessar uma vez por ano não recai em quem não pode fazê-lo, seja por causa da idade, de doença ou de outros motivos justos.
A dificuldade a respeito deste assunto pode nascer da grande redução sofrida pelo conceito de pecado mortal, a ponto de ele nem ser mais entendido como tal. Muitas vezes, as pessoas o confundem com a violação do sexto mandamento.
Nós, sacerdotes, temos que lembrar aos fiéis e a nós mesmos que há sete pecados capitais (orgulho, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e preguiça) e que cada um deles envenena a alma de maneira diferente..
Além de tudo isto, a obrigação da confissão uma vez por ano ajuda todos nós a lutar contra o pecado da presunção diante do julgamento divino.
Dúvidas sobre os temas litúrgicos? Escreva-nos! liturgia.zenit@zenit.org

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Falar de Deus aos pequeninos desde a concepção

Coluna de orientação catequética aos cuidados de Rachel Lemos Abdalla

Por Rachel Abdalla*
CAMPINAS, quinta-feira, 20 de setembro de 2012 (ZENIT.org)Apresentamos aos nossos leitores a coluna "Pequeninos do Senhor"; Essa nova coluna de reflexão e formação, organizada por Rachel Lemus Abdalla, será publicada todas as quintas-feiras, de quinze em quinze dias.
Com experiência de 15 anos na área da catequese, Rachel Abdalla é fundadora e presidente da Associação Pequeninos do Senhor.
Clique aqui para ler na íntegra a entrevista realizada por ZENIT à Rachel Abdalla no dia 24 de Agosto desse ano.
O Pequeninos do Senhor acredita na importância de caminhar lado a lado com Jesus para o crescimento da fé, desde pequenino. Entendemos que é no dia a dia que os pequeninos aprendem os valores cristãos e desenvolvem a sua fé na pessoa de Jesus Cristo, através dos exemplos que observam de seus pais e orientadores. Os sete  primeiros anos de vida tratam de uma fase fundamental da existência humana e é considerado o momento mais importante da formação do caráter, da personalidade , da afetividade e dos valores; momento em que a formação psicológica da criança é desenvolvida e todas as suas experiências vividas até então serão assimiladas e  servirão de base  para  suas condutas durante  o resto da vida.
Mas, como fazer essa caminhada cristã enquanto a criança está sendo gerada?
Tudo começa desde a concepção! O bebê está sendo formado nas entranhas de sua mãe, ou seja, no mais íntimo do seu ser, onde reside o Sopro Divino do amor, que está gerando esta nova vida. Neste tempo de formação, a mãe é responsável pelo desenvolvimento não só físico do seu bebê, alimentando-se adequadamente para que ele seja nutrido; mas, é responsável, também, pela nutrição emocional e espiritual que inicia-se neste tempo. A fé é algo que transcende o entendimento, mas que pode ser sentida e vivenciada desde a concepção do ser humano, pois a criatura é fruto do Criador e, portanto, fala e compreende a mesma linguagem. Por isso, rezar todos os dias para que o bebê ouça a voz de sua mãe e o seu louvor a Deus, faz com que ele também louve o Senhor por seu intermédio.
A mamãe deve conversar com o seu bebê, contar a ele tudo o que vê, com os olhos e com o coração, sobre as maravilhas feitas pelo Criador! Tentar explicar as cores do céu, como é a natureza, o arco-íris; falar sobre os passarinhos que voam, a variedade de peixinhos nos mares e a beleza dos animais. Falar também, da sensação de frio e de calor; da chuva que cai do céu e das nuvens que lá se formam... e principalmente, falar do amor que sente pelo seu bebê e o quanto ele é esperado. O bebê vai conhecer o mundo, primeiramente, por tudo o que a mãe conta, principalmente através da emoção que ela passa ao descrevê-lo. Esta percepção vai existir sempre e isso fará com que ele, durante a sua vida, acredite naquilo que não pode ver, mas que de fato existe, porque ele aprendeu a ter fé, a esperar para ver o que ainda não é visível aos olhos, mas que já pode ser sentido no coração. Esse exercício deve acontecer também após o nascimento. Desta forma o vínculo entre mãe, filho e Deus com certeza será fortalecido.
*Rachel Lemos Abdalla é Fundadora e presidente da Associação católica Pequeninos do Senhor e Coordenadora da Catequese de família da paróquia Nossa Senhora das Dores em Campinas, São Paulo.
Contato: contato@pequeninosdosenhor.com.br
site: www.pequeninosdosenhor.com.br
Quem quiser enviar perguntas ou expressar opiniões sobre os temas tocados pela coluna organizada por Rachel Lemos Abdalla pode escrever para: rachel.abdalla@pequeninosdosenhor.com.br

Desembargador questiona a questão da vida no novo código penal

Palavras de Roberval Casemiro Belinati, desembargador do TJDFT na audiência pública de instalação da frente parlamentar em defesa da vida
Por Thácio Siqueira
BRASILIA, quarta-feira, 19 de setembro de 2012 (ZENIT.org) - No dia 13 de setembro, Dr. Roberval Casemiro Belinati, Desembargador do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, concedeu uma conferência aos deputados, representantes de diversos movimentos, associações e entidades civis e religiosas que promovem a vida, e demais pessoas presentes.
A conferência se realizou durante a Audiência Pública de instalação da frente parlamentar em defesa da vida, com destaque para o tema do novo código penal brasileiro.
Também Coordenador-Geral do Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos do TJDFT e Professor de Direito Penal do UniCeub, Dr. Belinati, começou "agradecendo a Comissão de Bioética da Arquidiocese de Brasília pelo convite para representá-la neste evento".
Em suas palavras abordou diversos temas relacionados à vida como: aborto, ortotanásia e eutanásia, infanticídio, induzimento ao suicídio, terrorismo e invasão de terras, descriminalização do uso de drogas, prostituição infantil, disparidade na aplicação das penas e aumento da pena máxima para 40 anos.
No que se refere ao aborto o desembargador relata que “Verifica-se que o Projeto do Novo Código Penal reduz ainda mais as penas já tão reduzidas”.
Segundo o desembargador: “As maiores mudanças, porém, estão no artigo 128. Ele deixa de começar por “não se pune o aborto” e passa a começar por “não há crime de aborto”. O que hoje são hipóteses de não aplicação da pena (escusas absolutórias) passa a ser hipóteses de exclusão do crime.”
Dentre as inúmeras razões jurídicas contra o aborto, destacou o Dr. Belinati: “O direito à vida é cláusula pétrea, que não pode ser modificada por emenda constitucional, por lei ordinária e muito menos por um código penal”. E também disse que “O aborto, além de ofender a Carta Magna, macula o Código Civil Brasileiro, no seu artigo 2º, que proclama que “a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro.”
A sociedade brasileira espera com ansiedade a reforma do Código Penal que está em vigor desde 1942, conclui o Dr. Belinati, porém, deseja “uma reforma profunda, bem estudada, bem discutida, sem pressa e sem vaidade", disse o desembargador.
Publicamos a seguir o texto na íntegra:
***
Aborto
Verifica-se que o Projeto do Novo Código Penal reduz ainda mais as penas já tão reduzidas. O aborto provocado pela gestante ou com seu consentimento, atualmente punido com detenção de um a três anos, passa a ter pena de prisão de seis meses a dois anos (art. 125). O terceiro que provoca aborto com o consentimento da gestante, atualmente punido com reclusão de um a quatro anos, passa a sofrer pena de prisão de seis meses a dois anos (art. 126). Se o aborto for provocado sem o consentimento da gestante, o terceiro é punido com prisão, de quatro a dez anos (art. 127). Curiosamente, ele recebe um aumento de pena de um a dois terços se, “em consequência do aborto ou da tentativa de aborto, resultar má formação do feto sobrevivente” (art. 127,§1º). Esse parágrafo parece ter sido incluído para estimular o aborteiro a fazer abortos “bem feitos”, evitando que, por “descuido”, ele deixe a criança com vida e má formada.
As maiores mudanças, porém, estão no artigo 128. Ele deixa de começar por “não se pune o aborto” e passa a começar por “não há crime de aborto”. O que hoje são hipóteses de não aplicação da pena (escusas absolutórias) passa a ser hipóteses de exclusão do crime. E a lista é tremendamente alargada. Basta que haja risco à “saúde” (e não apenas à “vida”) da gestante (inciso I), que haja “violação da dignidade sexual” (inciso II), que a criança sofra anomalia grave, incluindo a anencefalia (inciso III) ou simplesmente que haja vontade da gestante de abortar (inciso IV). Neste último inciso o aborto é livre até a décima segunda semana (três meses). Basta que um médico ou psicólogo ateste que a gestante não tem condições “psicológicas” (!) de arcar com a maternidade.
Razões jurídicas contra o aborto
A proposta pela liberação do aborto, em qualquer caso, não pode prosperar, pois, em primeiro lugar, ofende a Deus, que fez o homem e a mulher à sua imagem e semelhança e os abençoou dizendo: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a” (Gn 1,28). E determinou: “Não matarás.” (Êxodo , 20,13).
O aborto é o assassinato de um ser humano, é o homicídio de um ser indefeso e inocente.
O direito à vida é direito fundamental, desde a concepção até a morte natural.
Cada pessoa é um dom valioso de Deus e é única, insubstituível e irrepetível.
O direito à vida é o primeiro entre todos os direitos.
A ciência médica ensina que com doze semanas de gestação o bebê já está bem formado. Todos os sistemas orgânicos funcionam. Ele já respira e urina. O corpinho da criança já está bem evoluído e possui até impressões digitais. Quando sua mãe dorme, o bebê também dorme, mas quando a mãe desce uma escada, ele ouve um ruído forte e acorda. Com doze semanas de gestação, o bebê sente dor e é sensível à luz, ao calor e ao barulho. Eliminá-lo não significa destruir um monte de células sem vida humana, conforme alguns afirmam. Significa sim o assassinato de um ser humano inocente e indefeso.
Não podemos admitir que os grandes matem os pequenos, os fortes eliminem os fracos e os conscientes destruam os inconscientes. Este preceito deve ser observado em qualquer tempo pelas civilizações inteligentes.
A Constituição Federal garante a todos os brasileiros e estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida.
Não importa se o nascituro apresenta deficiência física, cerebral, anomalia grave, se vai viver somente por alguns instantes, se vai ser rico ou pobre. Em qualquer circunstância o nascituro tem o direito de nascer e de viver.
O direito à vida é cláusula pétrea, que não pode ser modificada por emenda constitucional, por lei ordinária e muito menos por um código penal.
O aborto, além de ofender a Carta Magna, macula o Código Civil Brasileiro, no seu artigo 2º, que proclama que “a personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro.”
Antes de nascer, o nascituro já é protegido pelo direito civil, e depois de nascer, será sujeito de direitos e deveres.
O aborto desrespeita o Estatuto da Criança e do Adolescente, que alerta que “é dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida”.
O Estado tem obrigação de oferecer condições para a gestante ter o filho sadio e para que o filho desenvolva-se dignamente. Não tem o direito de oferecer condições para a mãe matar o filho.
O aborto também ofende a Convenção Americana sobre Direitos Humanos, o Pacto de São José da Costa Rica, que o Brasil acolheu, e que diz que “toda pessoa tem o direito de que respeite sua vida. Esse direito deve ser protegido pela lei e, em geral, desde o momento da concepção. Ninguém pode ser privado da vida arbitrariamente”.
O extermínio de seres inocentes e indefesos também viola a Convenção sobre os Direitos da Criança, que o Brasil adotou da Assembléia Geral das Nações Unidas. Ela preceitua que “toda criança tem o direito inerente à vida.”
Igualmente desrespeita o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, que também declara que “o direito à vida é inerente à pessoa humana. Este direito deverá ser protegido por lei. Ninguém poderá ser arbitrariamente privado de sua vida.”
Ora, defender a vida humana não é questão meramente religiosa, como alguns afirmam. Defender a vida humana é respeitar a Deus, é respeitar o semelhante, é observar o direito brasileiro, o direito internacional, é, acima de tudo, amar.
Além do aspecto jurídico, nenhuma razão social pode justificar a prática do aborto, sendo inaceitável a alegação de que o aborto é necessário para controlar a natalidade, para combater a pobreza, para combater a fome, para combater o desemprego, para melhorar a raça, para solucionar conflito decorrente de infidelidade conjugal, para resolver gravidez não desejada ou para não permitir o nascimento de pessoa com deficiência. Todos esses argumentos são absurdos!
Infeliz ainda é a alegação de que a mulher é dona de seu corpo e deve ter liberdade para decidir sobre a continuidade ou não da gravidez. Ora, a mulher é uma pessoa e o feto é outra. Ela tem o dom sagrado de gerar o filho, mas não tem o direito de matá-lo. Esse argumento é falso, não é verdadeiro!
Também não é correta a alegação de que a liberação do aborto no Brasil reduziria a taxa de mortalidade materna, diminuiria o número de abortos e proporcionaria grande economia para os cofres públicos. Se na clandestinidade são praticados milhares de abortos, provavelmente mais de um milhão por ano, imagine o que aconteceria após a liberação?
A liberação do aborto só iria favorecer a “indústria do aborto” e seria um prêmio para aqueles que desejam se enriquecer, ganhar muito dinheiro com o assassinato de seres inocentes e indefesos.
Nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, paga-se de100 a1.200 dólares por um aborto. Imagine uma clínica realizando de10 a20 abortos por dia, quanto lucraria com o hediondo crime!
O Congresso Nacional deve tomar o máximo de cuidado para não ser iludido por aqueles que representam os interesses do poder econômico e desejam fazer fortuna com a liberação do aborto.
Eutanásia e ortotanásia
Outro dispositivo que precisa ser excluído do Projeto do Novo Código Penal refere-se à concessão de perdão judicial a quem pratica eutanásia em pessoa da família ou em alguém com quem se mantém estreitos laços de afeição, conforme está expresso no § 1º do artigo 122.
A extinção da punibilidade neste caso poderia estimular a prática da eutanásia, sobretudo para fins egoísticos, para favorecer, por exemplo, a abertura de inventário, para adiantar o pagamento de pensão, o recebimento dos bens do falecido, para fazer cessar o cansaço físico do responsável pelos cuidados do doente, enfim condutas absolutamente inaceitáveis e reprováveis.
Por essa razão não pode o Estado tolerar a eutanásia, pois, em sentido contrário, milhares de doentes correrão o risco de serem assassinados por pessoas da própria família, sob a falsa alegação de compaixão ou piedade.
A pessoa gravemente doente normalmente não tem condições físicas nem psicológicas para decidir sobre o seu próprio destino, daí ser inaceitável a alegação de que o ato foi praticado para atender a seu pedido, para abreviar-lhe o sofrimento.
Deixar de punir com prisão aquele que mata, seja por piedade ou compaixão, é violentar a Constituição Federal brasileira.
Também não pode o Estado deixar de punir com prisão aquele que pratica a ortotanásia, isto é, a ação daquele que deixa de oferecer tratamento ao doente, em estado irreversível, para não prolongar a sua vida, segundo o disposto no § 2º do referido artigo 122.
Ora, ninguém tem o direito de suprimir a vida a não ser Deus.
Infanticídio indígena
Há tribos indígenas que costumam matar recém-nascidos quando estes, por algum motivo, são considerados uma maldição. De acordo com o projeto, tais crianças ficam sem proteção penal, desde que se comprove que o índio agiu “de acordo com os costumes, crenças e tradições de seu povo” (art. 36). Isto precisa ser revisto e modificado para não se permitir o extermínio de recém-nascidos indígenas.
Induzimento, instigação ou auxílio a suicídio
Também é necessária a exclusão dos §§ 1º e 2º do artigo 123 do Projeto do Novo Código Penal, que autorizam a concessão de perdão judicial no caso de eutanásia ou ortotanásia no auxílio a suicídio.
No cenário internacional
Por essas razões, a prática da eutanásia é rejeitada na maioria dos países do mundo, sendo pouquíssimos os que a aceitam, como a Holanda, Bélgica e Luxemburgo. Na Suíça, por exemplo, admite-se o chamado “suicídio assistido”, que se diferencia da eutanásia porque nesta o agente é responsável pelo procedimento que abrevia a vida do paciente, enquanto naquela o agente apenas fornece os meios necessários para que o paciente tire a própria vida, o que tem gerado inclusive o chamado “turismo da morte”, em que pessoas se deslocam à Suíça para se submeterem a essa prática. Não se pode admitir que aconteça o mesmo no Brasil.
Terrorismo e invasão de terras
O terrorismo é criminalizado (art. 239). Mas as condutas descritas (sequestrar, incendiar, saquear, depredar, explodir...) deixam de constituir crime de terrorismo se “movidas por propósitos sociais ou reivindicatórios” (art. 239, §7º). Os invasores de terra são favorecidos, uma vez que “a simples inversão da posse do bem não caracteriza, por si só, a consumação do delito” (art. 24, parágrafo único).
Descriminalização do uso de droga
Outra proposta que deve ser excluída do Projeto do Novo Código Penal refere-se à descriminalização do porte ou plantio de drogas para uso próprio, prevista nos §§ 2º, 3º e 4º do artigo 212, assim redigidos:
§ 2º Não há crime se o agente:
I – adquire, guarda, tem em depósito, transporta ou traz consigo drogas para consumo pessoal;
II – semeia, cultiva ou colhe plantas destinadas à preparação de drogas para consumo pessoal.
§ 3º Para determinar se a droga destinava-se a consumo pessoal, o juiz atenderá à natureza e à quantidade da substância apreendida, à conduta, ao local e às condições em que se desenvolveu a ação, bem como às circunstâncias sociais e pessoais do agente.
§ 4º Salvo prova em contrário, presume-se a destinação da droga para uso pessoal quando a quantidade apreendida for suficiente para o consumo médio individual por cinco dias, conforme definido pela autoridade administrativa de saúde.
A liberação do consumo de drogas traria conseqüências ainda mais nefastas, pois é sabido que a droga aniquila o usuário, faz sofrer a sua família e causa enormes danos e prejuízos a sociedade.
Seria ingênuo pensar que a descriminalização não aumentaria o consumo e o tráfico. Há poucos dias, a imprensa divulgou estatística informando que o Brasil já é o segundo maior consumidor de drogas do mundo. Imagine o que aconteceria se a droga fosse amplamente liberada!
O problema é de saúde pública e de segurança pública, porque o consumo e o tráfico são os maiores responsáveis pelo aumento da violência e da criminalidade.
O Estado tem obrigação de implantar políticas públicas para combater o tráfico e o consumo de substâncias entorpecentes, e jamais criar condições para a sua legalização.
Prostituição infantil
Atualmente comete estupro de vulnerável quem pratica conjunção carnal com menor de 14 anos (art. 217-A, CP). O projeto baixa a idade: só considera vulnerável a pessoa que tenha “até doze anos”. Isso vale para o estupro de vulnerável (art. 186), manipulação ou introdução de objetos em vulnerável (art. 187) e molestamento sexual de vulnerável (art. 188).
Deixa de ser crime manter casa de prostituição (art. 229, CP) ou tirar proveito da prostituição alheia (art. 230, CP). Quanto ao favorecimento da prostituição ou da exploração sexual de vulnerável, a redação é ainda mais assustadora: só será crime se a vítima for “menor de doze anos” (art. 189). Deixa de ser crime, portanto, a exploração sexual de crianças a partir de doze anos. Isto precisa ser modificado.
Disparidade na aplicação das penas
Segundo a linha ideológica do PLS 236/2012, o ser humano vale menos que os animais. A omissão de socorro a uma pessoa (art. 132) é punida com prisão, de um a seis meses, ou multa. A omissão de socorro a um animal (art. 394) é punida com prisão, de um a quatro anos. Conduzir um veículo sem habilitação, pondo em risco a segurança de pessoas (art. 204) é conduta punida com prisão, de um a dois anos. Transportar um animal em condições inadequadas, pondo em risco sua saúde ou integridade física (art. 392), é conduta punida com prisão, de um a quatro anos.
Os ovos, larvas ou espécimes da fauna silvestre não podem ser vendidos, adquiridos, transportados nem guardados, sob pena de prisão, de dois a quatro anos (art. 388, §1º, III). Os embriões humanos, porém, podem ser comercializados, submetidos à engenharia genética ou clonados sem qualquer sanção penal, uma vez que ficam revogados (art. 544) os artigos24 a29 de Lei de Biossegurança (Lei 11.101/2005).
Mais um exemplo na disparidade na aplicação das penas: matar ou caçar algum animal silvestre sem permissão da autoridade competente será punido com dois a quatro anos de prisão. A pena poderá chegar a 12 anos se o crime for praticado com exercício de caça profissional, segundo o artigo 388. No entanto, matar um ser humano indefeso ou inocente, no ventre da mãe, pelo aborto, disposto nos artigos 125 e126, apena de prisão será de seis meses a dois anos.
Essa disparidade precisa ser corrigida, pois a vida humana é o maior bem que Deus concedeu aos homens e merece maior proteção por parte do Estado, com punições mais severas para aqueles que a ofendem.
A pena legalmente cominada indica a importância que a ordem jurídica atribui ao preceito e ao bem jurídico tutelado, e quanto maior a importância do valor jurídico violado, maior deve ser a pena cominada ao crime.
Pena máxima de 40 anos
Outra parte do Projeto do Novo Código Penal que precisa ser modificada refere-se ao aumento do limite máximo de trinta para quarenta anos de prisão, no caso de unificação da pena, sobrevindo condenação por fato posterior, conforme está expresso no § 2º do artigo 91.
Obrigar o condenado a cumprir até 40 anos de prisão é estabelecer prisão perpétua, é decretar a pena de morte progressiva, em flagrante desrespeito ao direito constitucional da dignidade humana.
Raríssimos presos conseguem suportar no cárcere o limite máximo de 30 anos, previsto na legislação em vigor. Imagine aumentar esse prazo para 40 anos!
Não se está defendo a impunidade daqueles que cometem crimes quando já encarcerados, mas é a oportunidade para reclamar a adoção de políticas públicas mais eficientes que combatam a criminalidade e auxiliem com mais resultados a reeducação dos condenados. A simples majoração das penas tem sido insuficiente para esse fim.
Conclusão
A sociedade brasileira está ansiosa pela reforma do Código Penal Brasileiro, que data de 1940 e está em vigor desde 1942, com inúmeras modificações.
Mas espera uma reforma profunda, bem estudada, bem discutida, sem pressa e sem vaidade.
Aguarda, sobretudo, uma reforma sem aberrações, uma reforma verdadeira, que reconheça o direito à vida humana como o maior dentre todos os demais direitos.
Confiamos que a Frente Parlamentarem Defesa da Vida, instalada neste egrégio Parlamento, estará em permanente vigília, com o apoio da sociedade do Distrito Federal, para defender o respeito e a preservação da vida humana.
Que Deus abençoe a todos!
Muito Obrigado.
Desembargador Roberval Casemiro Belinati

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Estilo sóbrio de vida familiar para uma nova evangelização

Para uma nova evangelização, a família torna-se sujeito da missão ao testemunhar um estilo de vida cristão diante dos diversos cenários da atualidade
Por Rafael Fornasier*
BRASILIA, segunda-feira, 17 de setembro de 2012 (ZENIT.org) - Em 2003, foi realizada a experiência de um Congresso Internacional para a Nova Evangelização em Viena, iniciativa abraçada e encabeçada por quatro cardeais: Christoph Schönborn (Viena) Jean-Marie Lustiger (Paris), Godfried Danneels (Bruxelas) e José da Cruz Policarpo (Portugal), aos quais se juntou em seguida o Cardial Péter Erdo (Budapeste). Durante os congressos, sucessivamente realizados em várias capitais européias, o falecido Cardeal Jean-Marie Lustiger insistira na necessidade de se viver, numa época de significativas mudanças, um “nouvel art de vivre” (uma nova arte de viver), um novo estilo de vida cristão, face aos diversos desafios contemporâneos.
Com efeito, esses congressos abriram um importante caminho de reflexão e partilha de experiências para o próximo Sínodo dos Bispos, que acontecerá em Roma de 7 a 28 de outubro, sobre a Nova Evangelização.
No Instrumentum laboris (texto de trabalho) preparado para o Sínodo e disponibilizado em várias línguas, apontam-se vários cenários como “lugares de anúncio do Evangelho e de experiência eclesial” (cf. Instrumentum laboris, 51). Um dos cenários individuados é o econômico. O Papa Bento, no Angelus de 12 de novembro de 2006, convidava cada pessoa e cada família a adotar um estilo de vida e de consumo diante dos desafios que já se apresentavam naquele momento, mas que se tornaram mais prementes nos últimos anos com a crise econômica e também ética. Cabe à pessoa e à família viver e anunciar uma nova arte de vida, um modus vivendi cristão que implica a simplicidade e um estilo de vida feito de escolhas humildes e sob o ideal evangélico da pobreza em vista de novas relações humanas que garantam, de fato, a preservação do meio ambiente e do próprio ser humano no seu habitat, no seu ethos próprio.
Para a nova evangelização, a família pode dar um belo testemunho em relação à utilização dos bens materiais e em suas relações interpessoais; em relação ao modo de propor e assumir o trabalho e prover à suas necessidades; em relação à economia, no sentido de uma boa administração da casa, do lar face à proposta consumista que pretende saciar a todo o custo a busca de bem-estar, prazer e satisfação da humanidade.
A partir de uma reflexão do Cardial de Milão, Dom Angelo Scola, num debate realizado antes do VII Encontro Mundial das Famílias com o Papa Bento XVI, pode-se afirmar que a família tem capacidade de levar uma mensagem ao mundo a respeito da relação entre necessidades materiais e a satisfação humana. O Cardeal Scola afirmara: “A necessidade é com muita frequência interpretada como direito exclusivo ao bem-estar. Essa é, ao invés, antes de tudo sinal de fragilidade. Se não se reconhece isso, a necessidade se transforma em pretexto e se torna fonte de domínio. De fato, a experiência da fragilidade não é resolvível pela lógica da dilatação indefinida do consumo: nada do que consumimos está em grau de remediar a estrutural “falta” (necessidade) que caracteriza o modo humano de estar no mundo. Pretender uma satisfação total através do consumo é um mito tecnocrático. Mesmo se a sua própria proposta parece ter atualmente esmorecido, este mito volta a ser incessantemente reproposto. Está, de fato, claro que o pretexto de recorrer ao consumo indiscriminado tem um custo humano, além do ambiental, de incalculável alcance, que cada vez menos pode conduzir à satisfação e à felicidade, muito menos àquela dos poucos que ainda dele se beneficiam.” (O texto está integralmente publicado na Revista Vida e Família, a revista da Pastoral Familiar no Brasil. Para adquiri-la, ligue para (61) 34432900 ou visite o site www.cnpf.org.br)
Portanto, para uma nova evangelização, a família torna-se sujeito da missão ao testemunhar um estilo de vida cristão diante dos diversos cenários da atualidade. O seu estilo de vida sóbrio, num mundo que contrariamente exalta o consumo e o ter, é verdadeiramente um válido instrumento para anunciar o Evangelho e testemunhar a fé (cf.  Instrumentum laboris, 71). Isso se manifesta pela caridade inventiva de seus membros, pela arte de reinventar as situações a fim de que a família continue aberta ao dom, às relações livres, responsáveis e comprometidas no tempo, à acolhida da vida e do outro, ao cuidado e defesa da vida desde a concepção até o seu fim natural, à partilha, ao serviço, à solidariedade e ao amor para com os homens e mulheres de nosso tempo.
*Pe. Rafael Cerqueira Fornasier é sacerdote da Arquidiocese de Niterói, membro da Comunidade Emanuel, mestre em Antropologia Teológica e assessor da Comissão Episcopal Pastoral para Vida e Família da CNBB.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

ORAÇÃO EM FAMILIA



             Desde os primórdios do mundo, o ser humano sempre procurou aproximar-se e comunicar-se com Deus, por meio da oração. A oração cristã é a forma de comunicação com o Pai. E é através da oração que podemos elevar a nossa alma até Ele.
            A oração é um desejo interior. “Pois a oração é um impulso do coração, é um simples olhar lançado ao céu, um grito de reconhecimento e amor no meio da provação ou em meio a alegria.”CIC 2558.
              Sempre que oramos e seja através de gestos, cantos ou palavras, o nosso corpo inteiro fica em oração. Mas a oração parte  do fundo de nossa alma. É o nosso coração que reza.
              Se o nosso coração não está em Deus, se está longe de Deus, a oração é vã. São apenas palavras que não chegam até Deus.
             Pois, “ O coração é casa em que estou, onde moro. Ele é o nosso centro escondido, inatingível pela razão e por outra pessoa; só o Espírito de Deus pode sondá-lo e conhecê-lo. Ele é o lugar da decisão, no mais profundo de nossas tendências psíquicas. É o lugar da verdade, onde escolhemos a vida ou a morte.”CIC 2563  Assim vemos que o coração é o nosso ponto de encontro com Deus.
               A iniciativa de comunicação sempre parte de Deus, Ele nos chama, assim como chamava  Abraão ( Gn 12,4) A escuta do coração  ao chamado de Deus é essencial para acontecer a comunicação, entre Deus e eu.
               Portanto a oração cristã é ação de Deus e do homem, brota do Espírito e de nós, é dirigida ao Pai, em união com Jesus Cristo.
               A Bíblia nos relata que Jesus em varias ocasiões se retirou para orar. Comunicava-se com o Pai através da oração, nos ensinou a rezar, nos ensinou a oração do Pai Nosso. Lc 11, 1-13.
              A oração precisa ser vivida a partir do nosso coração, para ser vivida em nossa vida , em nossa realidade.
             Vivemos em um mundo competitivo, individualista, consumista e personalista. Criamos os nossos filhos para o mundo. Criamos nossos filhos para esse  mundo desleal e desonesto. O que ensinamos em casa? Qual o nosso exemplo de vida? O que esperamos deles? Qual proposta de vida que apresentamos a eles? Uma vida de sucesso ou uma vida de felicidade? Queremos os dois sucesso e felicidade, será que é possível?
             Na verdade, queremos que nossos filhos tenham sucesso na vida, e por isso queremos e cobramos sempre a vitória, não nos contentamos com o segundo lugar. E dessa maneira damos a idéia de que é preciso alcançar de qualquer maneira o primeiro lugar. E muitas vezes não nos importamos com os meios de chegar, o importante é chegar. O importante é vencer, ter sucesso. Até sabemos que nosso filho cola nas prova da escola, bem... Mas depois vem uma nota boa e ele passa de ano. Cuidado!!!
            Também queremos que nossos filhos sejam felizes, que  devem     divertir-se, buscar o prazer,   e assim saem para dançar, beber, transar...Correm de moto, ou automóvel, a velocidade faz parte...Enfim, devem aproveitar a juventude.   Pensamos que isso é felicidade. Será que não é mera ilusão?
           Por causa dessa ilusão quantos jovens morrem precocemente de acidente, contraem doenças, caem nos vícios, se desiludem, perdem o rumo.
           Mas como encontrar a felicidade em  um mundo onde as pessoas estão corrompidas pelo poder, um mundo de disputas, guerras, violência,  de desigualdade social grave? Como poderemos ser felizes com esse pano de fundo? Hoje, a felicidade nos parece algo distante, difícil de atingir, mas por que? Se Deus nos criou para sermos felizes!
            A sociedade atual  vive a inversão dos valores, não está mais alicerçada nos valores éticos e morais cristãos. “ A inversão dos meios e dos fins  que acaba por conferir valor de fim àquilo que não passa de meio para consegui-lo, ou por considerar as pessoas como meros meios em vista de um fim, produz estruturas injustas que tornam árdua e praticamente impossível uma conduta cristã conforme os mandamentos do Divino Legislador.” CIC 1887.
             Por isso é necessária uma conversão interior, é preciso resgatar os princípios cristãos na família. Buscar uma mudança pessoal, para levar a uma mudança na família e conseqüentemente na sociedade. Criar nossos filhos próximos de Deus. Colocar o amor à Deus como objetivo principal em nossa vida.
              A oração do Pai Nosso é o caminho que nos leva a uma reflexão mais profunda sobre a nossa vida, o nosso sentir, o nosso pensar, o nosso agir. “ Pois é a mais perfeita das orações...Nela não só pedimos tudo quanto podemos desejar corretamente, mas ainda segundo a ordem em que convém desejá-lo. De modo que esta oração não só nos ensina a pedir, mas ordena também todos os nossos afetos.”CIC 2541.
            A oração nos remete a vida de irmãos, se o Pai é nosso, é porque somos todos irmãos, e na verdade, o somos, pois  a partir do nosso batismo nos tornamos filhos de Deus, e por isso somos irmãos na fé. Vivemos em sociedade e devemos viver o principio do amor. O amor ao próximo. Ter o coração aberto para o outro, sempre pronto a ajudar, a perdoar...A oração também nos ensina que o perdão é fundamental, que precisamos perdoar para ser perdoado. A pessoa humana deve ser sempre o principio, sujeito e fim de todas as instituições sociais, principalmente na família.
            Quando chamamos a Deus de nosso Pai, precisamos lembrar de que devemos comportar-nos como filhos de Deus. Mas se conservamos um coração cruel e desumano, e egoísta voltado para o ter, o poder e o prazer, não nos comportamos como filhos de Deus.
            Devemos entender que o mundo, as riquezas, o prazer nos afastam de Deus, e só encontraremos  Deus, quando nos esforçarmos para descobrir a beleza de uma vida simples, despojada, numa autêntica procura de Deus, e só ai encontraremos a verdadeira vida, a verdadeira felicidade.
             Encontramos nessa oração o resumo do Evangelho, ai Jesus nos ensina uma vida nova por suas palavras, nos ensina a pedi-las pela oração, pois da retidão de nossa oração dependerá a retidão de nossa vida em Cristo.
             Rezar ao Pai Nosso deve desenvolver em nós a vontade de nos assemelhar a ele,  ao seu amor e bondade, ter o coração humilde e confiante, que nos conduz a comunhão com a Santíssima Trindade a aos irmãos.
                             Maria Ronety Canibal