segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Como vemos os nossos filhos?

Reflexões para a Festa da Sagrada Família
Por Pe. Anderson Alves
BRASíLIA, 30 de Dezembro de 2012 (Zenit.org) - Percebe-se atualmente uma crise educativa cada vez mais intensa. De modo geral, constata-se que o nível médio de educação diminui drasticamente e que o processo formativo dos jovens enfrenta grandes dificuldades. As crianças e os adolescentes aprendem cada vez menos; a autoridade dos professores tende a desaparecer e os jovens, em meio a uma aparente energia, sentem-se sós e desorientados. E isso numa época de incrível desenvolvimento da Pedagogia. Nunca houve tantas pessoas que estudam essa ciência e nunca tivemos tantas teorias pedagógicas como agora. No Brasil a crise educativa é cada vez mais preocupante, embora tenha eminentes pedagogos. Um recente estudo comparou a educação em 40 países e mostrou que o Brasil (6ª Economia do mundo) ficou em 39º lugar na educação, atrás de países como Singapura (5º), Romênia (32º), Turquia (34º) e Argentina (35º)[1]. Certamente uma das causas da atual crise educativa no Brasil não é a falta de recursos, mas algo mais profundo: não sabemos mais como ver e tratar os nossos filhos.
Até a metade do século passado, tinhamos uma ideia bem clara sobre o que eram os nossos filhos: acima de tudo, eram considerados um dom de Deus, um presente que nos tinha sido dado para ser tratado com atenção, carinho e muita resposabilidade. Os filhos eram visto como um dom divino e a paternidade era considerada uma participação especial no poder criador de Deus. De modo que os filhos eram tratados com respeito e a vida era acolhida com alegria e generosidade.
Isso se deve ao fato de que nosso modo de viver até então era marcado pelos ensinamentos da cultura judaico-cristã. Seguia-se o exemplo de figuras como a de Ana (Cfr. 1 Sam. 1), uma mulher estéril que todos os anos ia a um Templo de Israel prestar culto a Deus, e que, certa vez teve a ousadia de pedir-lhe um filho. Depois que Deus escutara suas ferventes orações, ela retornou ao Templo para agradecer o dom recebido e para consagrar a vida daquele novo ser a Deus. Ana era plenamente consciente de que a vida humana procede e retorna a Deus, para quem nada é impossível.
A partir da “revolução” de 1968 uma nova cultura surgiu, na qual a visão bíblica foi abandonada. S. Freud, na sua época, sonhava o dia em que fosse separada a geração dos filhos da estrutura familiar, algo que a partir de 68 vem se tornando frequente. Desde então, procura-se incutir nos jovens a idéia de que os filhos são um obstáculo, algo que tolhe a liberdade, a autonomia e que impede a realização pessoal. Os filhos passam a ser considerados como uma ameaça e a gravidez como uma espécie de doença, que deve ser evitada a todo custo. E às pessoas que não são tão jovens, transmete-se a ideia de que os filhos são um “direito”. Desse modo, os filhos passam a ser considerados ou como uma “ameaça” ou como um “direito”, não mais como um dom. Daí surgem problemas sérios. Na Inglaterra, por exemplo, esse ano um dos pedidos mais feitos ao “Papai Noel” pelas crianças foi um pai; outro pedido comum foi, simplesmente, ter um irmão. O risco atual é que os adultos passem a considerar os próprios filhos como uma espécie de “mercadoria”, um sonho de consumo, que deve ser realizado num momento perfeitamente determinado. Os filhos são cada vez mais frutos de cálculos e não tanto do amor. E isso deixa feridas graves nas crianças.
Deixar de considerar os filhos como um dom divino e tê-los simplesmente como o resultado de uma técnica é um passo importante para a desconfiguração das famílias e para arruinar a educação. De fato, ocorre com frequência que os pais, paradoxalmente, procuram “superproteger” os filhos, buscando livrá-los de qualquer perigo e, ao mesmo tempo, não querem encontrar o tempo para dedicar-se à difícil tarefa educativa dos mesmos. As crianças são enviadas cada vez mais cedo às escolas e os professores devem se empenhar em transmitir valores que as crianças deveriam ter recebido em casa.
E há ainda outro grave perigo: os adultos procuram ter filhos mais para serem aprovados por eles, do que para transmitir um amor total, gratuito e comprometido. Sejamos sinceros: muitas vezes, em nossas famílias ocorre algo perverso: os pais se comportam como crianças, lamentando-se da infância que tiveram, e os filhos se sentem obrigados a comportarem-se como adultos[2]. Com essa mudança de papéis ninguém assume o a própria responsabilidade familiar, e isso se reflete no rendimento dos jovens nas nossas escolas e Universidades.
Nesse ponto, podemos talvez voltar nosso olhar ao livro que formou a civilização ocidental. O Evangelho conta-nos somente uma cena da adolescência de Jesus e do seu “processo educativo”.. Quando ele tinha 12 anos, foi levado ao templo por Maria e José para participar na festa da Páscoa (Cfr. Lc 2). O jovem judeu quando cumpria essa idade iniciava a ser considerado adulto na fé. Quando aquela familia deve retornar a casa, Maria e José se destraem e Jesus, como verdadeiro adulto, permanece no templo discutindo com os doutores da Lei. Quando ele é reencontrado, Maria o repreende, mesmo sabendo que quem estava diante dela não só era um “adulto” na fé, mas o mesmo Filho de Deus: “Meu filho, que nos fizeste? Teu pai e eu te procurávamos cheios de aflição”.. E Jesus, depois de manifestar a plena consciência da sua identidade divina (“não sabíeis que devo ocupar-me das coisas do meu Pai?”), volta à casa com Maria e José e “era-lhes submisso em tudo”. Que impressionante! Maria e José não fugiram de sua responsabilidade educativa em relação àquele adolescente que sabiam ser o Filho de Deus; e Jesus, sendo verdadeiro Deus, volta à casa com sua família, obedecendo-lhes em tudo até os 30 anos. Vemos assim que na família de Nazaré ninguém fugia da própria responsabilidade, uma vez que eram unidos por um verdadeiro amor, o qual se demonstra na autoridade, na humildade e no serviço e não no autoritarismo ou na indiferença.
Parece, portanto, que para se recuperar o sentido da verdadeira educação, para se enfrentar à grave crise educativa atual, devemos ajudar as famílias a considerarem a vida como um dom de Deus, a tratarem os seus filhos com verdadeira diligência, não delegando toda a responsabilidade educativa a outras pessoas ou intituições. A tarefa é árdua, mas pode ser realizada, especialmente à luz da fé que por séculos iluminou a nossa sociedade. Devemos voltar a seguir ao modelo da Sagrada Família mais do que aos parâmetros contraditórios de uma “revolução” que só trouxe ao mundo a exaltação do egoísmo, da irresponsabilidade e o consequente aumento do sofrimento dos mais débeis..
Pe. Anderson Alves é da diocese de Petrópolis – Brasil - e doutorando em Filosofia na Pontifícia Università della Santa Croce, em Roma.

CINCO ANOS

Caros diocesanos.
Desejamos saudar-vos ainda com votos de Feliz e Abençoado Ano Novo! Na passagem do Novo Milênio, o Papa João Paulo II nos convidava a “lembrar com gratidão o passado, a viver com paixão o presente, abrir-nos com confiança para o futuro” (NMI 1). No início de 2013 queremos parafrasear essas palavras, pois sempre temos muito a agradecer no final de um ano, vivido na graça do Senhor, destacando os sinais de Deus em nossa vida; mas também iniciamos o Ano Novo com vibração e entusiasmo, pois olhamos para frente, e caminhamos cheios de confiança para o futuro que se descortina diante de nós. “Quem tem fé, tem futuro”, afirma Bento XVI.
 A presente mensagem é de nº 246, iniciando o ano da graça do Senhor de 2013. Em 30 de setembro passado, ao completarmos, com gratidão, cinco anos de nosso ministério episcopal em Uruguaiana, foi enviado pela sobrinha Clarice um belo texto, com o título: “Bodas de Ferro”. O termo Bodas normalmente se relaciona com datas jubilares de casamento, mas pensando um pouco mais, logo nos damos conta que o bispo faz uma profunda aliança de amor com sua Igreja particular, sua diocese; por isso até usa um anel, ainda hoje beijado por muitos. Em uma das primeiras mensagens (nº 004), ainda em novembro de 2007, assim nos expressávamos, ao explicar as insígnias episcopais: “O Anel é símbolo da fidelidade e do amor à Igreja de Jesus Cristo. A Igreja, especialmente a Igreja particular ou Diocese, é como sua esposa. A ela dedica seu amor incondicional e fiel”. Ao concluir os cinco anos de presença nesta Terra Santa, agradecemos ao Senhor por todo bem que realizou em seu servo e através de seu ministério. Neste espírito de gratidão e esperança, deixemos a autora do texto Bodas de Ferro se expressar:
Faz cinco anos que atracaste na barranca do Rio Uruguai, em Uruguaiana.Em tua bagagem: missão, serviço e ministério.Desembarcaste na Terra Santa, apaziguado e resoluto, numa atitude própria de Bom Pastor.Caminhaste, atento aos sinais de Deus, ao encontro das pessoas, das famílias, das comunidades e dos povos; construindo verdadeiros santuários, preenchendo-os de sentido.Sempre de mansinho, pois, quanto mais pressa, menos são percebidos os sinais dos tempos.Nunca estiveste sozinho. Se tombaste na pedra lisa, teu rebanho compreensivo e fraterno fez acolhida.Quanto mais bem e paz dividida, mais a dor foi resumida.Mas se mesmo assim a dor foi violenta, tua fé te sustentou, e o silêncio te organizou.Sim, Bodas de Ferro. Essa promessa, tão nobre e desafiadora, vigora firme como rocha, com a bênção da Mãe Conquistadora.Parabéns! Com muito carinho, Clarice”.

A Mãe Conquistadora continue a nos amparar na missão evangelizadora de 2013!
Dom Aloísio A. Dilli
Bispo de Uruguaiana