segunda-feira, 30 de abril de 2012

ISTO TAMBÉM PASSARÁ

Conta-se de um rei bondoso e sábio que se encontrava no final de sua vida. Um dia pressentindo a chegada da morte, chamou seu único filho, tirou do dedo um anel e deu-lhe dizendo:
- Quando fores rei, leve sempre contigo este anel. Nele está uma inscrição.
Quando passares por momentos difíceis ou de glórias, retire o anel e leia o que nele está escrito.

O velho sábio rei morreu, e seu filho passou a reinar em seu lugar, sempre usando o anel que seu pai lhe dera. Passado algum tempo, surgiram conflitos com o reino vizinho que culminaram numa grande guerra.

E num momento de grande angústia no aceso das batalhas, vendo mortos e muitos feridos caídos em meio ao rio de sangue; lembrou-se do anel, tirou-o e leu a inscrição: "Isto também passará". E continuou a lutar com seu valente exército. Perdeu batalhas, venceu outras tantas, mas ao final saiu vitorioso.

Ao retornar para seu reino, entra coberto dos lauréis da conquista e coroado de glórias, sendo aclamado por todos como o maior dos heróis. Neste momento ele lembra de seu velho e querido pai. Tira o anel, e novamente lê: "Isto também passará".

Como é importante administrar com sabedoria os momentos de dor e os momentos de glória. No furor dos embates da vida, é primordial ter a certeza que a nossa tribulação é leve e momentânea.
Isto é, não dura para sempre.

Autor desconhecido
 
                                                                                   

sábado, 28 de abril de 2012

O PROFETA (vamos juntos cantar)

Jornada Mundial da Juventude

ORAÇÃO MEDITADA DO PAI NOSSO

Como posso dizer PAI-NOSSO...
Se não vejo todas as pessoas como meus verdadeiros irmãos.
Se eu penso somente em mim, não posso dizer Pai Nosso.
Tenho olhado todas as pessoas como meus verdadeiros irmãos? Até mesmo aqueles que me prejudicam? Ou só penso em mim?
Como posso dizer QUE ESTAIS NO CÉU...
Se eu não acredito na vida eterna!
Se eu não acredito que Jesus está verdadeiramente vivo!
Tenho dado exemplos principalmente para meus filhos que realmente acredito na vida eterna e que Jesus está verdadeiramente vivo? Ou tenho me acomodado? Tenho esquecido que deixar de participar da Santa Missa para fazer qualquer outra coisa é negar que Jesus está vivo.
Como posso dizer SANTIFICADO SEJA O VOSSO NOME...
Se não procuro santificar a minha vida!
Se não procuro santificar a mim mesmo.
Tenho procurado santificar a minha vida? Tenho procurado santificar a vida de todos aqueles que convivem comigo? Tenho procurado santificar a minha família, minha esposa ou meu marido, meus filhos...? Ou tenho achado mais fácil me acomodar?
Como posso dizer VENHA A NÓS O VOSSO REINO...
Seu só penso em ter, mesmo que para isso tenha que passar outras pessoas para traz.
Tenho sido verdadeiramente honesto com todas as pessoas para poder dizer venha a nós o vosso reino? Ou tenho pensado só em ter?
Como posso dizer SEJA FEITA A VOSSA VONTADE ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU...
Se na maioria das vezes eu só penso na minha vontade, muitas das vezes sem olhar se estou ou não prejudicando meu irmão. Se eu nunca procuro fazer a vontade de Deus! Como posso dizer que seja feita a sua vontade?
Tenho procurado fazer de minha vida a vontade de Deus? Tenho sido humilde e realmente aceitado a vontade de Deus? Ou por qualquer motivo reclamo e às vezes até me revolto?
Como posso dizer O PÃO NOSSO DE CADA DIA NOS DAÍ HOJE...
Se eu quero o pão de hoje, o pão de amanhã, o pão de daqui um ano, o pão de sempre e ás vezes até o pão de meu irmão.
Tenho agradecido a Deus pelo pão de hoje, para que ele nunca me falte? Ou tenho procurado ganhar o pão de hoje, o pão de amanhã, o pão de daqui um ano ou quem sabe até o pão de sempre! Mesmo que para isso tenha que explorar o meu irmão mais fraco, às vezes até tirando o seu único pedaço de pão. Realmente tenho que pensar melhor quando digo “O pão nosso de cada dia nos daí hoje”

Como posso dizer PERDOAI-NOS AS NOSSAS OFENSAS, ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS A QUEM NOS TEM OFENDIDO...
Se eu não sei perdoar! Se por qualquer motivo eu viro o rosto para meu irmão! Se por qualquer motivo eu fico sem falar com outras pessoas! Muitas das vezes não sei compreender até mesmo meus familiares.
Tenho perdoado a todos que me ofendem, que me magoam...? ou tenho sido um hipócrita em ter coragem de virar para Deus e pedir que Ele me perdoe como eu perdôo? Realmente tenho que prestar mais atenção quando estou rezando.
Como posso dizer NÃO NOS DEIXEIS CAIR EM TENTAÇÃO...
Se eu não faço a minha parte, se na maioria das vezes eu sempre procuro aquilo que me afasta de Deus e que me leva a pecar.
Tenho feito a minha parte, me afastando de lugares indevidos? Lugares que não serviriam de exemplos para meus filhos, fazendo coisas que um dia possa vir a me arrepender! Quando peço a Deus para não me deixar cair em tentação também tenho que fazer a minha parte e não ir ao encontro dela.
Como posso dizer LIVRAI-NOS DO MAL...
Se eu não fujo do pecado! Se muitas das vezes até vou ao encontro dele!
Tenho procurado fugir de todo tipo de mal, de tudo que leva a pecar? Ou tenho ido ao seu encontro? Tenho ensinado a meus filhos a fugir do pecado? Ou meus exemplos não são tão bons?
Como posso dizer AMÉM se não tenho feito a minha parte?
Oração
Senhor, que a partir de hoje, que a partir desse momento, eu possa nos meus momentos de oração, refletir mais sobre o que estou falando, pois Senhor eu quero realmente viver a oração que o seu filho nos ensinou. Que eu possa realmente te chamar de Pai, que eu possa Senhor fazer com que todos vejam que estais no céu e que eu santifique a minha vida para poder dizer santificado seja o vosso nome. Eu quero Senhor dizer venha a nós o vosso reino de coração, para que o Senhor reine dentro de mim e em toda minha vida. Para que eu Senhor, possa falar de coração sincero, que seja feita a Tua vontade assim na terra como no céu.
Que eu saiba louvar e agradecer todos os dias de minha vida, pelo pão que recebo e também pedir para que ele nunca falte na mesa de nenhum de meus irmãos. Que eu saiba Senhor perdoar o meu irmão de coração, assim como o Senhor nos perdoa, que eu procure sempre me afastar de todo tipo de tentação, para que o Senhor me livre de todo tipo mau.
AMÉM! 

Mensagem enviada por: Dirceu Alvez

Cristo verdadeira amizade


Quando precisares, lembra-te de mim, estarei
ao teu lado.
Quando estiveres triste, lembra-te de mim,
estarei presente para te consolar.
Quando sentires vontade de chorar, lembra-te
de mim, meu ombro é todo teu.
Quando precisares de alguém para conversar,
desabafar, lembra-te de mim, estarei te
ouvindo.
Quando sentires carência, lembra-te de mim,
dar-te-ei carinho.
Quando sentires necessidade de um pouco de
paz, lembra-te de mim, dar-te-ei a paz de que
necessitas.
Quando sentires a falta do amor verdadeiro,
lembra-te de mim, dar-te-ei esse amor.
Se precisares de tudo isso e mais... mesmo
que não creias em mim, lembra-te... e
procura-me.
Aqui estarei.
Mas se não me procuras, porque achas que
não necessitas de mim, mesmo assim,
lembra-te: estarei sempre ao teu lado.


Mírian Teresa Marson Taubaté - SP

 

 

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Defesa e promoção da dignidade humana em todas as dimensões

CNBB envia nota sobre a Reforma do Código Penal brasileiro durante a 50° Assembleia Geral
Por Maria Emília Marega
APARECIDA, quarta-feira, 25 de abril de 2012 (ZENIT.org) – Nesta quarta-feira, os Bispos reunidos na 50ª Assembleia Geral da CNBB aprovaram a criação de uma comissão para acompanhar o trabalho de reforma do Código penal Brasileiro, que está sendo feito por um grupo de juristas no Senado Federal.
Demonstrando interesse em acompanhar o processo, a  Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) encaminhou uma nota ao Senado Federal através desta Comissão de Juristas.
A nota destaca a preocupação dos Bispos sobre algumas propostas que devem ser apresentadas pela referida Comissão, relativas aos capítulos que tratam sobre os crimes contra a vida e contra o patrimônio.
“Reconhecemos que, para atender melhor às exigências da sociedade, o Código Penal em vigor, aprovado em 1940, precisa incorporar elementos novos, exigência das grandes transformações, que marcam os tempos atuais, sem prejuízo dos valores perenes como a vida e a família”, afirma o documento.
Sobre a lei penal a nota destaca que esta deve ser aplicada tendo por base os pressupostos de defesa e promoção da dignidade humana em todas as dimensões, deixando claro que a punição tem como finalidade a reabilitação do infrator, independente de sua condição social, política, econômica, étnica, conforme determinam os artigos 3º e 5º da Constituição.
O documento afirma que os Bispos do Brasil esperam “que o sentido de justiça, a serviço do bem maior – a pessoa humana - anime a todos nesta tarefa, inspirados na palavra do Beato João Paulo II: ‘A justiça sozinha não basta; e pode mesmo chegar a negar-se a si própria, se não se abrir àquela força mais profunda que é o amor’ “(Mensagem para o Dia Mundial da Paz – 2004).
“Que o Espírito Santo ilumine o coração e a mente dos legisladores, Senadores e Deputados Federais, sobre quem invocamos também a proteção de Nossa Senhora Aparecida para que, em comunhão com todos os brasileiros, busquem realizar o que Jesus Cristo nos indica como promessa e tarefa: “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundancia” (Jo 10,10)”, termina a nota.

Decisão sobre o aborto de crianças com anencefalia pode ser suspensa

Entrevista com Ives Gandra Martins Filhos
SAO PAULO, terça-feira, 24 de Abril de 2012 (ZENIT.org) – Publicamos aos nossos leitores a entrevista que o presidente da União dos Juristas Católicos de São Paulo,  o jurista Ives Gandra Martins concedeu à Agência Portalum sobre o tema da anencefalia, na quarta-feira, 18 de abril.
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– Como o STF não tem poder legislador, o julgamento da ADPF nº 54 pode ser considerado nulo por ser inconstitucional?
 Ives Gandra – Na minha interpretação da lei maior, o Congresso Nacional pode anular a decisão do STF com base no artigo 49, inciso XI, assim redigido: "É da competência exclusiva do Congresso Nacional: XI – zelar pela preservação de sua competência legislativa em face da atribuição normativa dos outros Poderes". O Supremo Tribunal Federal não tem poder de legislar, nem mesmo nas omissões inconstitucionais do Legislativo, isto é, quando a Constituição exige a produção de uma lei imediata e o Parlamento não a produz. E, à evidência, se há proibição do STF legislar em determinadas matérias, em que a desídia do Congresso é inequívoca, com muito mais razão não pode a Suprema Corte avocar-se no direito de legislar no lugar do Congresso naquelas matérias de legislação ordinária. Tal aspecto foi bem salientado pelo ministro Ricardo Lewandowsky em seu voto.
O dispositivo que impede o Pretório Excelso de legislar é o parágrafo 2º do artigo 103 da Lei Suprema, assim redigido: “Declarada a inconstitucionalidade por omissão de medida para tornar efetiva norma constitucional, será dada ciência ao Poder competente para a adoção das providências necessárias e, em se tratando de órgão administrativo, para fazê-lo em trinta dias". Para o Executivo há prazo para produzir a norma. Para o Legislativo, nem prazo, nem sanção, se não a produzir.
– Qual a sua opinião sobre esse caso não ter sido julgado no Congresso? E pela maneira antidemocrática como foi feito, sem levar em conta as manifestações da sociedade e também sem permitir que vozes contrárias fossem ouvidas durante a sessão?
Ives – Só me resta lamentar, até porque as entidades favoráveis à vida foram proibidas de sustentar oralmente a defesa da vida, pelo ministro Marco Aurélio que não as admitiu como amicus curiae (amigos da Corte). Desta forma, em plenário só houve a defesa dos advogados favoráveis ao aborto (procurador-geral e o da instituição promotora da ADPF).
Matéria desta complexidade, em que a maioria da sociedade, segundo o ministro Lewandowsky, é contra, à evidência, só poderia ser decidida pelo Congresso e, a meu ver, promovendo um plebiscito para conhecer o que quer a nação.
Para mim, todavia, em face da inviolabilidade do direito à vida desde a concepção (art. 5º, "caput"), entendo que, por ser cláusula pétrea, a questão não poderia ser sequer tratada, não tendo sido recepcionado o Código Penal de 1940 nas hipóteses do aborto sentimental ou terapêutico.
– Qual é o critério para a escolha dos ministros do STF? Quem responde por alguma decisão indevida? De que forma a sociedade pode agir para exigir algum tipo de mudança nos critérios antidemocráticos adotados no julgamento?
Ives – O sistema atual é ruim, pois depende exclusivamente da vontade política ou amizade do presidente com o candidato escolhido. Uma vez escolhido, entretanto, só por prevaricação poderá o ministro ser afastado pelo Senado. Jamais por decidir de acordo com suas convicções, mesmo quando frontalmente contrariar a lei.. O que a sociedade pode fazer é pressionar os congressistas na forma de escolha dos ministros do STF.
– Essa decisão pode abrir um precedente para a liberação do aborto em outras situações não previstas em lei?
Ives – Claramente abre um precedente para o aborto de fetos mal formados. A reação, todavia, foi de tal espécie que creio que dificilmente o STF entrará em outra aventura semelhante. Deixará os demais casos para o Congresso decidir.
– Qual a sua opinião sobre o aborto de crianças anencéfalas?
Ives – O artigo 2º do Código Civil declara que todos os direitos são assegurados ao nascituro, desde a concepção. O parágrafo 5º da Constituição diz que ele é inviolável. E o parágrafo 4º do Pacto de São José, do qual o Brasil é signatário, que os direitos do nascituro devem ser assegurados desde a concepção. Não há qualquer exceção nos três textos. Por esta razão, nada obstante a decisão de oito ínclitos ministros do STF, continuo considerando aborto de anencéfalos um homicídio uterino, agora legalizado.
Fonte Portalum

A notícia publicada na edição de Zenit português de ontem, 24 de Abril de 2012, com o título "Decisão sobre o aborto de crianças com anencefalia pode ser suspensa", afirma que a entrevista foi feita ao Presidente da União dos Juristas Católicos de São Paulo, Ives Gandra Martins Filho.
Aclaramos aos nossos leitores que o Presidente da União de Juristas Católicos de São Paulo é o Dr. Ives Gandra Martins, jurista e professor. E o Ministro do TST é o Dr. Ives Gandra Martins Filho

O Estado é laico, mas a sociedade é religiosa

Coletiva de imprensa com o Card. Dom Odilo Pedro Sherer
APARECIDA, terça-feira, 24 de abril de 2012 (ZENIT.org) – Ontem, 23 de Abril, durante a coletiva de imprensa da 50ª Assembléia Geral dos Bispos do Brasil, o Cardeal Dom Odilo Pedro Sherer, arcebispo de São Paulo, disse aos jornalistas presentes, que o “Estado é laico”, mas “a nossa sociedade é muito religiosa”.
Falando “pelo lado da Igreja Católica” o purpurado afirmou a importância da laicidade do estado, porém, de uma laicidade bem entendida, “isto é, que o Estado respeite a liberdade religiosa, que respeite as livres escolhas religiosas dos cidadãos, a livre expressão religiosa”, ou seja, “que o Estado não tenha religião oficial, mas que também não interfira na religião”.
“A igreja Católica não tem problemas de conviver com o Estado laico”, afirmou Dom Odilo. Há porém o perigo de uma laicidade interpretada como uma espécie de “pensamento único, imposto a todos os cidadãos, que exclui a presença religiosa, o pensamento religioso” fazendo que os cidadãos religiosos sejam considerados como de segunda categoria, “Isto sim cheira e beira a discriminação religiosa”, disse o Cardeal.
Que haja um respeito pela liberdade religiosa de cada um, é o que deseja o purpurado.
“Por outro lado, que não se pretenda em nome da laicidade do Estado, impor como pensamento mais válido, o pensamento ateu”, pois vai contra a mesma cultura do nosso povo, afirmou Dom Odilo.
O Cardeal concluiu afirmando que o“Estado é laico. Isto é bom, e que assim seja! No entanto, a sociedade não é laica.. A sociedade é religiosa e muito religiosa! Com inúmeras expressões de religiosidade que, portanto, o Estado deve levar em consideração e, de acordo com a constituição, respeitar”.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

"AS VOCAÇÕES, DOM DO AMOR DE DEUS"

Amados irmãos e irmãs.
O 49º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, que será celebrado no IV domingo de Páscoa (29 de Abril), convida-nos a refletir sobre o tema “As vocações, dom do amor de Deus”. A fonte de todo o dom perfeito é Deus, e Deus é Amor – Deus caritas est –; “quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele” (1Jo 4, 16). A Sagrada Escritura narra a história deste vínculo primordial de Deus com a humanidade, que antecede a própria criação. Ao escrever aos cristãos da cidade de Éfeso, São Paulo eleva um hino de gratidão e louvor ao Pai pela infinita benevolência com que predispõe, ao longo dos séculos, o cumprimento do seu desígnio universal de salvação, que é um desígnio de amor. No Filho Jesus, Ele “escolheu-nos” – afirma o Apóstolo – “antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em caridade na sua presença” (Ef 1,4). Fomos amados por Deus, ainda “antes” de começarmos a existir! Movido exclusivamente pelo seu amor incondicional, “criou-nos do nada” (cf. 2 Mc 7,28) para nos conduzir à plena comunhão consigo.
          À vista da obra realizada por Deus na sua providência, o salmista exclama maravilhado: “Quando contemplo os céus, obra das vossas mãos, a Lua e as estrelas que Vós criastes, que é o homem para Vos lembrardes dele, o filho do homem para com ele Vos preocupardes?” (Sl 8,4-5). Assim, a verdade profunda da nossa existência está contida neste mistério admirável: cada criatura, e particularmente cada pessoa humana, é fruto de um pensamento e de um ato de amor de Deus, amor imenso, fiel e eterno (cf. Jr 31,3). É a descoberta deste fato que muda, verdadeira e profundamente, a nossa vida.
          Numa conhecida página das Confissões, Santo Agostinho exprime, com grande intensidade, a sua descoberta de Deus, beleza suprema e supremo amor, um Deus que sempre estivera com ele e ao qual, finalmente, abria a mente e o coração para ser transformado: “Tarde Vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Vós estáveis dentro de mim, mas eu estava fora, e fora de mim Vos procurava; com o meu espírito deformado, precipitava-me sobre as coisas formosas que criastes. Estáveis comigo e eu não estava convosco. Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria, se não existisse em Vós. Chamastes-me, clamastes e rompestes a minha surdez. Brilhastes, resplandecestes e dissipastes a minha cegueira. Exalastes sobre mim o vosso perfume: aspirei-o profundamente, e agora suspiro por Vós. Saboreei-Vos e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e agora desejo ardentemente a vossa paz” (Confissões, X, 27-38). O santo de Hipona procura, através destas imagens, descrever o mistério inefável do encontro com Deus, com o seu amor que transforma a existência inteira.
          Trata-se de um amor sem reservas que nos precede, sustenta e chama ao longo do caminho da vida e que tem a sua raiz na gratuidade absoluta de Deus. O meu antecessor, o Beato João Paulo II, afirmava – referindo-se ao ministério sacerdotal – que cada “gesto ministerial, enquanto leva a amar e a servir a Igreja, impele a amadurecer cada vez mais no amor e no serviço a Jesus Cristo Cabeça, Pastor e Esposo da Igreja, um amor que se configura sempre como resposta ao amor prévio, livre e gratuito de Deus em Cristo” (Pastores dabo vobis, n.º 25). De fato, cada vocação específica nasce da iniciativa de Deus, é dom do amor de Deus! É Ele que realiza o “primeiro passo”, e não o faz por uma particular bondade que teria vislumbrado em nós, mas em virtude da presença do seu próprio amor “derramado nos nossos corações pelo Espírito Santo” (Rm 5,5).
          Em todo o tempo, na origem do chamamento divino está a iniciativa do amor infinito de Deus, que se manifesta plenamente em Jesus Cristo. “Com efeito” – como escrevi na minha primeira Encíclica – “existe uma múltipla visibilidade de Deus. Na história de amor que a Bíblia nos narra, Ele vem ao nosso encontro, procura conquistar-nos – até à Última Ceia, até ao Coração trespassado na cruz, até às aparições do Ressuscitado e às grandes obras pelas quais Ele, através da ação dos Apóstolos, guiou o caminho da Igreja nascente. Também na sucessiva história da Igreja, o Senhor não esteve ausente: incessantemente vem ao nosso encontro, através de pessoas nas quais Ele Se revela; através da sua Palavra, nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia” (Deus caritas est, n.º 17). O amor de Deus permanece para sempre; ele é fiel a si mesmo, à “promessa que jurou manter por mil gerações” (Sl 105,8). Por isso é preciso anunciar de novo, especialmente às novas gerações, a beleza persuasiva deste amor divino, que precede e acompanha: este amor é a mola secreta, a causa que não falha, mesmo nas circunstâncias mais difíceis.
          Amados irmãos e irmãs, é a este amor que devemos abrir a nossa vida; cada dia, Jesus Cristo chama-nos à perfeição do amor do Pai (cf. Mt 5,48). Na realidade, a medida alta da vida cristã consiste em amar “como” Deus; trata-se de um amor que, no dom total de si, se manifesta fiel e fecundo. À prioresa do mosteiro de Segóvia, que fizera saber a São João da Cruz a pena que sentia pela dramática situação de suspensão em que ele então se encontrava, este santo responde convidando-a a agir como Deus: “A única coisa que deve pensar é que tudo é predisposto por Deus; e onde não há amor, semeie amor e recolherá amor” (Epistolário, 26). Neste terreno de um coração em oblação, na abertura ao amor de Deus e como fruto deste amor, nascem e crescem todas as vocações. E é bebendo nesta fonte durante a oração, através duma familiaridade assídua com a Palavra e os Sacramentos, nomeadamente a Eucaristia, que é possível viver o amor ao próximo, em cujo rosto se aprende a vislumbrar o de Cristo Senhor (cf. Mt 25,31-46). Para exprimir a ligação indivisível entre estes “dois amores” – o amor a Deus e o amor ao próximo – que brotam da mesma fonte divina e para ela se orientam, o Papa São Gregório Magno usa o exemplo da plantinha: “No terreno do nosso coração, [Deus] plantou primeiro a raiz do amor a Ele e depois, como ramagem, desenvolveu-se o amor fraterno” (Moralia in Job, VII, 24, 28: PL 75, 780D).          Estas duas expressões do único amor divino devem ser vividas, com particular vigor e pureza de coração, por aqueles que decidiram empreender um caminho de discernimento vocacional em ordem ao ministério sacerdotal e à vida consagrada; aquelas constituem o seu elemento qualificante. De fato, o amor a Deus, do qual os presbíteros e os religiosos se tornam imagens visíveis – embora sempre imperfeitas –, é a causa da resposta à vocação de especial consagração ao Senhor através da ordenação presbiteral ou da profissão dos conselhos evangélicos. O vigor da resposta de São Pedro ao divino Mestre – “Tu sabes que Te amo” (Jo 21,15) – é o segredo duma existência doada e vivida em plenitude e, por isso, repleta de profunda alegria. A outra expressão concreta do amor – o amor ao próximo, sobretudo às pessoas mais necessitadas e atribuladas – é o impulso decisivo que faz do sacerdote e da pessoa consagrada um gerador de comunhão entre as pessoas e um semeador de esperança. A relação dos consagrados, especialmente do sacerdote, com a comunidade cristã é vital e torna-se parte fundamental também do seu horizonte afetivo. A este propósito, o Santo Cura d’Ars gostava de repetir: “O padre não é padre para si mesmo; é-o para vós” [Le curé d’Ars. Sa pensée – Son cœur ( ed. Foi Vivante - 1966), p. 100].
          Venerados Irmãos no episcopado, amados presbíteros, diáconos, consagrados e consagradas, catequistas, agentes pastorais e todos vós que estais empenhados no campo da educação das novas gerações, exorto-vos, com viva solicitude, a uma escuta atenta de quantos, no âmbito das comunidades paroquiais, associações e movimentos, sentem manifestar-se os sinais duma vocação para o sacerdócio ou para uma especial consagração. É importante que se criem, na Igreja, as condições favoráveis para poderem desabrochar muitos “sins”, respostas generosas ao amoroso chamamento de Deus.
          É tarefa da pastoral vocacional oferecer os pontos de orientação para um percurso frutuoso. Elemento central há de ser o amor à Palavra de Deus, cultivando uma familiaridade crescente com a Sagrada Escritura e uma oração pessoal e comunitária devota e constante, para ser capaz de escutar o chamamento divino no meio de tantas vozes que inundam a vida diária. Mas o “centro vital” de todo o caminho vocacional seja, sobretudo, a Eucaristia: é aqui no sacrifício de Cristo, expressão perfeita de amor, que o amor de Deus nos toca; e é aqui que aprendemos incessantemente a viver a “medida alta” do amor de Deus. Palavra, oração e Eucaristia constituem o tesouro precioso para se compreender a beleza duma vida totalmente gasta pelo Reino.
          Desejo que as Igrejas locais, nas suas várias componentes, se tornem “lugar” de vigilante discernimento e de verificação vocacional profunda, oferecendo aos jovens e às jovens um acompanhamento espiritual sábio e vigoroso. Deste modo, a própria comunidade cristã torna-se manifestação do amor de Deus, que guarda em si mesma cada vocação. Tal dinâmica, que corresponde às exigências do mandamento novo de Jesus, pode encontrar uma expressiva e singular realização nas famílias cristãs, cujo amor é expressão do amor de Cristo, que Se entregou a Si mesmo pela sua Igreja (cf. Ef 5,25). Nas famílias, “comunidades de vida e de amor” (Gaudium et spes, 48), as novas gerações podem fazer uma experiência maravilhosa do amor de oblação. De fato, as famílias são não apenas o lugar privilegiado da formação humana e cristã, mas podem constituir também “o primeiro e o melhor seminário da vocação à vida consagrada pelo Reino de Deus” (Familiaris consortio, 53), fazendo descobrir, mesmo no âmbito da família, a beleza e a importância do sacerdócio e da vida consagrada. Que os Pastores e todos os fiéis leigos colaborem entre si para que, na Igreja, se multipliquem estas “casas e escolas de comunhão” a exemplo da Sagrada Família de Nazaré, reflexo harmonioso na terra da vida da Santíssima Trindade.
          Com estes votos, concedo de todo o coração a Bênção Apostólica a vós, veneráveis Irmãos no episcopado, aos sacerdotes, aos diáconos, aos religiosos, às religiosas e a todos os fiéis leigos, especialmente aos jovens e às jovens que, de coração dócil, se põem à escuta da voz de Deus, prontos a acolhê-la com uma adesão generosa e fiel. 

VIA SITE DA DIOCESE DE URUGUAIANA

DIA MUNDIAL DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES

          Caros diocesanos. Como já é de praxe, o papa Bento XVI escreveu mensagem para o Dia Mundial de Oração pelas Vocações, especialmente sacerdotais e religiosas, celebrado no dia 29 de abril, com o tema: “As vocações, dom do amor de Deus”. Segundo o Sumo Pontífice, a Sagrada Escritura revela a relação de amor de Deus para com a humanidade, mesmo antes da criação. A pessoa humana é amada por Deus, mesmo antes de existir. Seu amor é incondicional e de gratuidade absoluta, pois Ele nos quer em plena comunhão consigo. Afirma o Santo Padre que “cada pessoa humana é fruto de um pensamento e de um ato de amor de Deus”. Essa verdade muda profundamente o rumo e o sentido de nossa vida. A bíblia nos apresenta em Cristo a plenitude do amor, desde sua Encarnação até a Páscoa e sua volta ao Pai. Esse amor continua presente na Igreja primitiva e permanece vivo nela, através dos tempos: “incessantemente vem ao nosso encontro, através de pessoas nas quais Ele Se revela; através da sua Palavra, nos Sacramentos, especialmente na Eucaristia. O amor de Deus permanece para sempre; é fiel a si mesmo, à ‘promessa que jurou manter por mil gerações’” (Sl 105, 8). Segundo o Santo Padre, é preciso anunciar de novo, especialmente às novas gerações, a beleza persuasiva deste amor divino que nos precede e acompanha, que não falha, mesmo nas circunstâncias mais difíceis.
          Também nossa vocação é compreendida dentro desse contexto, pois ela nasce da iniciativa divina, tornando-se dom do seu amor e não merecimento de nossa parte. Ele vem ao nosso encontro, procurando conquistar-nos. No encontro com esse amor de Deus nós respondemos positivamente com nosso ‘sim’ vocacional, abrindo nossa vida para uma resposta fiel e fecunda. Afirma Bento XVI em sua mensagem para o dia de oração pelas vocações: “Neste terreno de um coração em oblação, na abertura ao amor de Deus e como fruto deste amor, nascem e crescem todas as vocações. E é bebendo nesta fonte durante a oração, através duma familiaridade assídua com a Palavra e os Sacramentos, nomeadamente a Eucaristia, que é possível viver o amor ao próximo, em cujo rosto se aprende a vislumbrar o de Cristo Senhor (cf. Mt 25, 31-46)”. Segundo o Papa, o amor a Deus, do qual presbíteros e religiosos devem tornar-se imagens visíveis, é a causa da resposta à vocação de especial consagração ao Senhor. Ao falar sobre o amor ao próximo, sobretudo às pessoas mais necessitadas e atribuladas, ele afirma que este é o propulsor decisivo que faz o sacerdote e o consagrado um gerador de comunhão e um semeador de esperança. Sua relação com a comunidade cristã “é vital e torna-se parte fundamental também do seu horizonte afetivo”.
          No final de sua mensagem Bento XVI faz um vivo apelo aos bispos, presbíteros, diáconos, consagrados/as, catequistas, agentes pastorais e todos que estão empenhados no campo da educação das novas gerações para “uma escuta atenta de quantos, no âmbito das comunidades paroquiais, associações e movimentos, sentem manifestar-se sinais duma vocação para o sacerdócio ou para uma especial consagração. É importante que se criem, na Igreja, as condições favoráveis para poderem desabrochar muitos ‘sins’, respostas generosas ao amoroso chamamento de Deus”. Entre os pontos de orientação para escutar o chamado divino e dedicar uma vida totalmente gasta pelo Reino devem estar a Palavra de Deus, a Oração pessoal e comunitária e a Eucaristia. Também a comunidade e a família, “primeiro e melhor seminário da vocação”, exercem importante influência para uma adesão generosa e fiel ao chamado. Que o Senhor da messe multiplique e abençoe nossos vocacionados/as.
Dom Aloísio A. Dilli - Bispo de Uruguaiana

domingo, 22 de abril de 2012

A propósito da Anencefalia

Artigo de refutação do ex- Sub Procurador Geral da República, Dr. Claudio Fonteles
BRASILIA, sábado, 21 de março de 2012 (ZENIT.org) - Nesta quinta-feira, dia 19 de março, recebemos mais um artigo do nosso colaborador habitual, Dr. Claudio Fonteles, ex-sub procurador Geral da República, sobre o tema votado no STF, sobre o aborto dos bebês anencéfalos.
Neste artigo o Dr. Claudio refuta toda a fundamentação jurídica dos que se posicionam pelo aborto dos fetos anencéfalos. Publicamos o artigo a seguir:
***
Por Dr. Claudio Fonteles
Motiva-me ao presente escrito, o parecer da Dra. Deborah Macedo Duprat de Britto Pereira sobre o tema encaminhado ao Supremo Tribunal Federal.
A idéia central está em que: “A maior parte dos fetos anencéfalos morre durante a gestação. Aqueles que não falecem durante a gravidez têm curtíssima sobrevida, de natureza meramente vegetativa, em geral de poucos minutos, ou horas.” ( parecer: item 22 ).
Eis raciocínio totalmente inconciliável com o princípio constitucional da inviolabilidade da vida humana ( art. 5º,caput ).
Com efeito, ser a vida humana inviolável, direito pessoal individualmente garantido, conduz-nos à necessária conclusão de que o tempo de duração da vida humana – se 3 segundos, 3 minutos, 3 horas, 3 dias, 3 semanas, 3 meses, 3 anos... – não é fator decisivo para a sua eliminação consentida.
À vida humana, gestada ou nascida, garante-se sua inviolabilidade, impedindo-se sua morte, insisto, por simples projeção do decurso temporal.
O juízo, sempre temerário, sobre o tempo de duração da vida humana não chancela seja liquidada. Assim viola-se, arbitrariamente, o que a Constituição federal quer inviolável.
Diz, passo adiante, a Dra. Deborah: “34. O reconhecimento da dignidade da pessoa humana pressupõe que se respeite a esfera de autodeterminação de cada mulher ou homem, que tem o poder de tomar decisões fundamentais sobre suas próprias vidas e de se comportarem de acordo com elas, sem interferências do Estado ou de terceiros.”
Est modus in rebus.
O princípio constitucional da dignidade da pessoa humana não é o apanágio do individualismo, do egocentrismo, da absoluta supremacia do eu, como o texto reproduzido indica.
O princípio constitucional da dignidade da pessoa humana se resguarda a autodeterminação de cada mulher e de cada homem, até porque nós todos, mulheres e homens, desde a concepção somos em contínuo e incessante auto-movimento nos ciclos que compõem a nossa vida, necessariamente embrionário, a que se inicie, e depois fetal, recém-nascido, criança, jovem, adulto e velho, se nos é dado viver todos os ciclos, tanto resguarda não para que nos enclausuremos, repito, na solidão egocêntrica, eis que somos seres vocacionados, porque também ínsita em nossa dimensão, a sociabilidade, portanto o princípio da dignidade da pessoa humana promove-a como ser social, e disso é expressão eloqüente o artigo 3º, inciso I, da Constituição Federal a preceituar que: Art. 3º - “Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I – construir uma sociedade justa, livre e solidária”.
Portanto, se vida há que se auto-movimenta no corpo materno, com ou sem deformações, mas se auto-movimenta, e vive, então como matá-la, por perspectiva meramente cronológica de sua existência?
Tal morte conduz-nos ao primado do egocentrismo, entortando a compreensão jurídica do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana, que não se compraz com a absolutização do arbítrio.
Diz, ainda, a Dra. Deborah: “É dentro do corpo das mulheres que os fetos são gestados, e, mesmo com todas as mudanças que o mundo contemporâneo tem vivenciado, é ainda sobre as mães que recai o maior peso na criação dos filhos,” ( item 36 do parecer ).
O argumento não deixa de estampar discriminação.
O homem, o pai, não mencionado, não conta.
Decisão sobre a manutenção da gestação não envolve, tout court, a idéia de autonomia reprodutiva só pertinente à mulher-mãe, como expressão, no dizer da Dra. Deborah, dos “direitos fundamentais à liberdade e à privacidade”.
Pelo fato, óbvio, dos fetos serem gestados “dentro do corpo da mulher” não se pode absolutizar, na mulher, o juízo, único e exclusivo, sobre a permanência da gestação, descartada a manifestação de vontade do homem-pai.
Tal ilação é tão absurda quanto o é a idéia de Ronald Dworkin, que a Dra. Deborah reproduz nesses termos: “... uma mulher que seja forçada pela sua comunidade a carregar um feto que ela não deseja não tem mais o controle sobre seu próprio corpo. Ele lhe foi retirado para objetivos que ela não compartilha. Isto é uma escravidão parcial, uma privação de liberdade.” ( transcrição no parecer, no item 38 ).
“Escravidão parcial” é tão inapropriada, porque ou se é escravo, ou se é livre, não existe o meio-escravo, quanto inapropriado é matar a vida que se auto-movimenta e se auto-desenvolve no ventre materno, que a acolhe, pela liberdade pontual e arbitrária da mulher-mãe em desacolhê-la.
Afirma a Dra. Deborah: “Entendo que a ordem constitucional também proporciona proteção à vida potencial do feto – embora não tão intensa quanto a tutela da vida após o nascimento – que deve ser ponderada com os direitos humanos das gestantes para o correto equacionamento das questões complexas que envolvem o aborto.” ( item 41 do parecer ).
Com todo o respeito, o princípio da dignidade da pessoa humana, assim como o da inviolabilidade da vida humana, ambos contemplam a vida e a pessoa humanas em todos os seus ciclos, desde o momento-embrião até o momento-ancião, se os ciclos cumprem-se normalmente, como já o disse antes, não fazendo o menor sentido atribuir-se  a tal, ou qual, ciclo maior, ou menor, proteção constitucional.
Não existe meia-vida como não existe meia-gravidez...
Portanto, falar-se em “tutela progressiva” da vida humana é percorrer argumentação cabalmente despropositada.
A Dra. Deborah conforta-se, nessa linha de argumentação, a dizer que: “Contudo, quando não há qualquer possibilidade de vida extra-uterina, como ocorre na anencefalia, nada justifica do ponto de vista dos interesses constitucionais envolvidos, uma restrição tão intensa ao direito à liberdade e à autonomia reprodutiva da mulher.” ( item 42 do parecer ).
Aqui, tem-se diante petição de princípio, inadequada ao debate jurídico, que pede a exposição concatenada de concretos fundamentos ao amplo exame da controvérsia, do mesmo modo que em nova petição de princípio a Dra. Deborah sentencia que: “Nas audiências públicas realizadas nesta ação foi devidamente esclarecido o fato de que a menina Marcela de Jesus, que teria supostamente sobrevivido por um ano e oito meses com anencefalia não tinha na verdade esta patologia, ao contrário do que afirmaram os opositores da interrupção voluntária da gravidez, mas outra má-formação cerebral menos severa, ainda que também de caráter fatal” ( item 23 do parecer ).
Ora, e com todo o respeito à Dra. Deborah, Marcela de Jesus, é fato certo, inequívoco, e não “supostamente”. Viveu mesmo 1 ano e 8 meses, e sua morte não decorreu da anencefalia. Quais as razões apresentadas na audiência pública a dizer que o quadro de Marcela não era de anencefalia? O parecer da Dra. Deborah é omisso, e nada demonstra, como deveria, no tópico. E, como mesmo diz a Dra. Deborah, se essa “má-formação cerebral menos severa, ainda que também de caráter fatal” acontece, então havemos de concluir que o aborto, ou a antecipação terapêutica do parto, como se queira eufemisticamente chamar, também, assim, é chancelado em homenagem à dignidade da pessoa da mulher-mãe...
Por derradeiro, a Dra. Deborah afirma que: “Por outro lado, também ficou patenteado nos autos que inexiste possibilidade real de transplante dos órgãos dos fetos anencéfalos para terceiros, uma vez que há, com grande freqüência, outras malformações associadas à anencefalia” ( item 24 do parecer ).
Todavia, a Portaria nº 487, de 2 de março de 2007, do Ministério da Saúde, dispõe exclusivamente “sobre a remoção de órgãos e/ou tecidos do neonato anencéfalo para fins de transplante ou tratamento” e, em seu artigo 1º é textual no assentar que: “A retirada de órgãos e/ou tecidos de neonato anencéfalo para fins de transplante ou tratamento deverá ser precedida de diagnóstico de parada cardíaca.”
Como manter-se a afirmação da Dra. Deborah de que “inexiste possibilidade real de transplante de órgãos dos fetos anencéfalos”?
Na verdade, e sempre com o respeito merecido, a argumentação da Dra. Deborah, e de todos os que querem legalizar a morte do feto, ou do bebê, anencéfalo não tem base jurídica.
A Constituição brasileira de 1988, significando a resposta democrática ao sombrio período do arbítrio e do menosprezo à vida humana, foi enfática e textual – e assim aqui torno a mencionar o artigo 1º, inciso III – no marcar para todas e todos, brasileiras e brasileiros, estrangeiras e estrangeiros, que aqui vivam, como objetivo fundamental da República federativa, a diuturna construção de sociedade justa, livre e solidária.
Aqui, tenho por caracterizado o que o professor associado de instituições de direito público da Universidade de Milão-Biccoca, Filippo Pizzolato, denomina de personalismo constitucional, que nada tem a ver com o protagonismo do ser individual. Conheçamos o que diz o professor Pizzolato:
“Do modelo individualista, que nossos constituintes refutam numa versão ideal-típica, parece se contestar a própria matriz, cuja origem pode facilmente ser encontrada no direito natural iluminista e no contratualismo liberal a ele correlacionado ( de Hobbes, Locke, Rousseau, entre outros). O pressuposto cultural e antropológico dessa tradição iluminista pode remontar, porém, ao cogito cartesiano, quer dizer, à idéia de autopercepção do sujeito como indivíduo, alguém que constrói para si uma identidade prescindindo dos outros e de um tecido de relações. Por trás de tudo isso, portanto, está a idéia de indivíduo, anteriormente desconhecida, como entidade originária, enquanto tal titular de um feixe de direitos naturais cuja consistência precede a própria idéia de sociedade. Nessa perspectiva, a sociedade é apenas o fruto posterior e eventual de um livre ato de vontade ( um contrato ) estipulado entre indivíduos, todos livres, independentes e iguais. Os direitos naturais gozam, assim, de uma fundamentação autônoma, completamente racionalista e abstrata e, enquanto tal, logicamente anterior ao próprio fenômeno jurídico, que, por sua vez, é propriamente social e, por conseguinte, voluntarista. Por mais paradoxal que possa parecer, na teoria do direito natural individualista, os direitos ( naturais ) vêm antes da sociedade e, assim, assumem uma vocação absolutista, com pequena tolerância para as necessárias limitações ou mediações que as relações sociais tornam inevitáveis.” ( in – O Princípio Esquecido – coletânea de artigos organizada por  Antônio Maria Baggio – editora Cidade Nova – pg. 116-17- no artigo: A fraternidade no ordenamento jurídico italiano de autoria do citado Prof. Filippo Pizzolato).
O personalismo constitucional, por sua vez, sustenta que: “  Pertencer a uma comunidade é constitutivo e estrutural da identidade humana, não um dado acessório ou opção eventual voluntarista” ( artigo citado – pg. 118 ) porque “ ... antes do indivíduo existe necessariamente uma comunidade, entendida como rede de relacionamentos, tecido de relações, quadro de solidariedade que sustenta o próprio indivíduo e permite o seu desenvolvimento,” ( ainda: pg. 118 ).
E arremata o prof. Pizzolato:
“Essa dimensão horizontal da solidariedade, já reconhecida, em que a fraternidade encontra um espaço destacado, não pode ser reduzida ao cânon, tipicamente liberal, do não prejudicar aos outros, mas encaminha e orienta o próprio exercício da liberdade, seguindo o mandato bem mais vinculativo do faça o bem ao outro ( ... porque é também o seu).”
( pg. 120 ).
Nessas colocações, reconhecido fica o pensamento do filósofo Emmanuel Mounier, assim tão eloqüente:
 “Trato o outro como um objeto quando o trato como ausente, como um repertório de informações, que me podem ser úteis  (G. Marcel ) ou como instrumento à minha disposição; quando o classifico definitivamente, isto é, para empregarmos exata expressão, quando desespero dele. Tratá-lo como sujeito, como ser presente, é reconhecer que não o posso definir, nem classificar, que ele é inesgotável, pleno de esperanças, esperanças de que só ele dispõe; é acreditar. Desesperar de alguém é desesperá-lo... O ato de amor é a mais forte certeza do homem, ocogito existencial irrefutável: amo, logo o ser é, e a vida vale ( a pena ser vivida).
( in- O Personalismo, pg. 48-9 , Centauro editora.).
O bebê anencéfalo ser é.

sábado, 21 de abril de 2012

ENTREVISTA COM SERGIO COUTINHO

Igreja: de regente a terceiro violino. Entrevista especial com Sérgio Coutinho

“Enquanto cada vez mais a sociedade trabalha para encontrar formas mais participativas, inclusive propondo o debate por um Estado mais democrático, a Igreja deu pouquíssimos passos na direção de uma verdadeira sinodalidade”, constata o historiador.
Confira a entrevista.
Este ano eleitoral deve ser o pano de fundo para a Igreja lançar novos debates acerca do Estado e da sua função social a fim de “estimular os movimentos sociais a continuarem nas lutas reivindicativas por políticas públicas que possam atender verdadeiramente aos interesses da sociedade como um todo”, declara Sérgio Coutinho à IHU On-Line.
Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, o presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina analisa os rumos e os desafios da Igreja no Brasil e é enfático: "ela quer contribuir para um debate mais profundo sobre o papel do Estado democrático, mas internamente nunca se viu tanto ‘verticalismo’ e controle da ‘opinião pública’ na Igreja, de modo especial do laicato mais crítico”.
Para Coutinho, a Cristandade, que ainda “permeia mentes e corações”, está com os dias contados. E para que possa fomentar um diálogo maduro, enfatiza, a Igreja precisa “reconhecer que ela não possui mais ‘poderio territorial’ (e isso já faz tempo desde as campanhas de Garibaldi e do Tratado de Latrão em 1929) e ‘poderio espiritual’ da época da Cristandade. É como aquela metáfora: ‘Durante pelo menos 10 séculos a Igreja foi a regente de uma grande orquestra. Agora ela é chamada a ser o ‘terceiro violino’ dessa mesma orquestra’”.
Sérgio Ricardo Coutinho dos Santos (foto) é mestre em História pela Universidade de Brasília - UnB e doutorando na mesma área pela UFG. É professor do curso de pós-graduação lato-senso em História do Cristianismo Antigo da UnB e presidente do Centro de Estudos em História da Igreja na América Latina - CEHILA-Brasil. Segundo o Diretório da Liturgia e da organização da Igreja no Brasil, 2012, ele é assessor nacional da Comissão Episcopal para o Laicato - CEBs.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - O ano de 2012 começou com uma novidade para a Igreja do Brasil: a indicação de Dom João Braz de Aviz ao cardinalato. O que essa nomeação indica em termos de conjuntura eclesial, tanto no Brasil como na Cúria?
Sérgio Coutinho - Este último Consistório revelou bem que a Cúria em nada é “católica”, ou seja, “universal”. O que assistimos foi uma chuva de nomeações de novos cardeais europeus e, principalmente, italianos, sendo que muitos deles são ainda membros da própria Cúria Romana. No momento em que é noticiado, pela imprensa, o cotidiano das intrigas curiais (conhecido por "Vatileaks"), o PapaBento XVI não teve a força política necessária para “esvaziar” o poder dos chefes dos diversos dicastérios e que, em certo sentido, são eles mesmos os que tramam em segredo (agora não mais, depois do vazamento dos documentos) por sua saída e, até mesmo, por sua morte (!).

Por outro lado, não deixa de ser interessante, nesse contexto, as declarações de D. João Avis após o Consistório, em que foi bastante firme, e até surpreendente, pois fez críticas quanto ao perfil por demais eurocêntrico da Igreja.
Além disso, a nomeação de D. João Braz Avis também revela uma tendência eclesial, já sentida desde o pontificado de João Paulo II: a força dos movimentos e das novas comunidades. Dom João nada entende de “Vida Religiosa consagrada” (dicastério do qual é reponsável), mas é membro do Focolares. Isso nos indica que o Vaticano deseja mesmo é valorizar as “novas formas” de vida religiosa consagrada e, nesse sentido, um membro desses movimentos dentro da cúria romana, e ainda mais como cardeal, terá um peso inegável no próximo conclave.
IHU On-Line - Com a nomeação de D. Aviz, como o senhor analisa a composição do Colégio dos Cardeais “brasileiro”? Como essa nova composição pode influenciar a vida da Igreja no Brasil?
Sérgio Coutinho - A nomeação de D. João Braz de Avis não significa nada em termos de valorização da importância da Igreja e do catolicismo no Brasil e América Latina, no contexto mais amplo da Igreja Católica. Como membro da Cúria, não podia deixar de ser nomeado cardeal. Alguém poderia dizer que o que o papa está fazendo não é nada mais do que respeitar as orientações de não nomear novos cardeais para algumas das principais arquidioceses onde ainda estão vivos seus cardeais eméritos. Mas o certo mesmo é que o Brasil ficará sem novos cardeais ainda por um tempo – a não ser que vá alguém trabalhar na Cúria.

IHU On-Line - Outra novidade recente é que D. Lorenzo Baldisseri, núncio apostólico no Brasil, foi recentemente nomeado novo secretário da Congregação para os Bispos. Seu substituto já foi anunciado. Qual a importância desse cargo na atual conjuntura da Igreja brasileira?
Sérgio Coutinho - Para o caso da Igreja brasileira, não podemos nos esquecer do trabalho importante de D. Armando Lombardi na colaboração e indicação do episcopado brasileiro no período imediatamente anterior e posterior aoConcílio Ecumênico Vaticano II. O resultado foi uma geração de bispos excepcional e que levará muitos anos para se repetir algo semelhante. Um quadro episcopal que levou a cabo as intuições e determinações desse Concílio, fazendo da Igreja do Brasil uma das que mais criativamente trabalhou na sua recepção, sendo inclusive vista por Roma como uma Igreja “rebelde” em muitas vezes.
Dom Baldisseri, seguindo seus sucessores e a política eclesial de “concentração católica” (Danielle Hervieu-Leger) iniciada pelo Papa João Paulo II, e aprofundada por Bento XVI, procurou escolher candidatos não tanto por sua formação teológica, mas por sua fidelidade ao projeto de fortalecer a “identidade católica” diante de uma sociedadecada vez mais secularizada e relativizada. Na verdade, esse perfil foi mais procurado para aqueles que pudessem ocupar as arquidioceses brasileiras, nas grandes e médias cidades onde estão as maiores concentrações populacionais e nas quais o processo de destradicionalização é acelerado. Paradoxalmente foram nomeados arcebispos mais preocupados com as questões morais do que propriamente questões pastorais (o grande desafio de evangelizar as cidades) e que pudessem ser vozes “proféticas”, denunciando os “males” do mundo (pós) moderno.
Peso político eclesiástico
Por outro lado, para as grandes dioceses, no sentido territorial da palavra, e de baixa densidade demográfica, foram nomeados, em um número razoável, bispos mais pastoralistas, com “baixa escolaridade” e preocupados com a falta de políticas sociais para aquelas populações. Diríamos, os bispos com forte sensibilidade pela causa dos pobres. No fim, o que temos mesmo é um episcopado muito preocupado com as questões burocrático-econômicas e com os temas da moral católica.
No entanto, no geral, os arcebispos acabam sempre por ter um peso político eclesiástico grande no conjunto do episcopado, mas muitas vezes assistimos a articulações e posições que nem sempre são previstas pelo Núncio, como foram as duas últimas eleições da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB.
Tenho esperança que o novo Núncio, o jovem D. Giovanni D’Aniello (57 anos!), possa contribuir para que tenhamos um quadro novo no perfil do episcopado brasileiro. Sua experiência diplomática se concentra principalmente em regiões em que os católicos são minoria e perseguidos; por outro lado, lugares onde a pobreza desumaniza o projeto de Deus (Burundi, Tailândia, Líbano, Congo e Camboja). Espero que o convívio com tal realidade traga, para a Igreja no Brasil, verdadeiros pastores comprometidos com a causa do Reino.

IHU On-Line - 2012 também será o grande ano de preparação para a Jornada Mundial da Juventude - JMJ, no Rio de Janeiro, com a presença do papa, em julho de 2013. O que espera desse encontro? Por outro lado, como analisa os primeiros passos da organização?
Sérgio Coutinho - Do ponto de vista da organização, parece que as coisas vão indo dentro do cronograma estipulado. Como também vemos uma boa participação da juventude católica na recepção da Cruz e do Ícone. No entanto, ainda não conseguimos visualizar os resultados propriamente pastorais ou de evangelização de todo esse processo. Não se vê (ou se viu) nada que enfrentasse de forma aberta e corajosa os grandes desafios da juventude atualmente: desemprego, violência, exploração... nada se fala sobre a falta de políticas públicas voltadas para a juventude. Alguns dizem que a Campanha da Fraternidade de 2013 provocará essas questões. Espero que sim.
Mas o que podemos concluir já de imediato com a preparação desse evento é aquela mesma impressão que tenho da escolha de D. João Aviz: a presença majoritária, e até dominante, nos encaminhamentos da JMJ dos movimentos e novas comunidades, em detrimento dos grupos das Pastorais da Juventude (Pastoral da Juventude, Pastoral da Juventude Rural, Pastoral da Juventude Estudantil e Pastoral da Juventude do Meio Popular). A questão é se queremos uma pastoral de massa, de eventos, ou uma pastoral verdadeiramente evangelizadora. Vamos acompanhar melhor os próximos passos.

IHU On-Line - Além disso, 2012 será um ano de duas grandes celebrações: os 50 anos da inauguração do Concílio Vaticano II e os 40 anos da publicação do livro Teologia da Libertação. Perspectivas, de Gustavo Gutiérrez. Começando pelo Concílio, no contexto brasileiro, o que é necessário retomar com mais força depois desses 50 anos dos debates conciliares e o que ficou “esquecido”? Por outro lado, onde é preciso “reatualizar” o Concílio para o momento atual da Igreja no Brasil?
Sérgio Coutinho - Parece-me que uma temática conciliar que necessitaria aprofundar é o da “horizontalidade” na Igreja.
Já o Sínodo de 1985 compreendeu essa questão na forma do conceito de “comunhão”. Porém, o problema é como entender este termo. Lembro-me da comparação feita por João Batista Libanio numa palestra que assisti: “Se eu trago para vocês aqui um bolo, parto em vários pedaços e distribuo para todos... vocês estarão em comunhão comigo, não é!? Mas, por outro lado, se digo para vocês assim: ‘Vamos fazer um bolo!? Quem vai trazer a farinha? Quem vai trazer os ovos? Quem vai amassar a massa?...’ Depois de preparado, colocamos no forno e depois de pronto, todos nós comemos juntos. Pois bem, a primeira forma é o que chamamos de ‘comunhão hierárquica’ e o segundo jeito é o que chamamos de ‘comunhão e participação’”.
“Comunhão e participação” foi a compreensão dos bispos nas conferências de Medellín e Puebla da eclesiologia conciliar de “povo de Deus”. Foi também a compreensão dos bispos da CNBB no momento de recepção do Concílio. Foi por isso mesmo que, aqui, desenvolvemos e aprofundamos uma série de instâncias participativas, mesmo em contextos políticos de pouquíssima ou nenhuma participação democrática. Assembleias gerais do episcopado, assembleias diocesanas, paroquiais, comunitárias, assembleias dos organismos, conselhos pastorais diversos, equipes de liturgia, ministérios laicais. Enfim, uma série de práticas que favoreciam a participação e a “opinião pública” dentro da Igreja.
Obediência às rubricas
O que assistimos nos últimos 25 anos foi um processo cada vez mais exacerbado de “clericalização”, ou de “verticalização” na Igreja. O estudo de Direito Canônico passou a ser o carro chefe da formação dos futuros presbitérios, mesmo os de Institutos Religiosos. Isso significa que se vêm enfatizando muito mais a obediência às rubricas e normas eclesiásticas do que propriamente na construção de caminhos de evangelização. Conselhos paroquiais cada vez mais centralizados e cumprindo papel meramente figurativo, marcadamente consultivo. Quando for deliberativo, cumpre a função dos membros apenas apertar a tecla de “confirmar” o que pensa o padre.
Desse modo, os institutos de formação presbiteral insistem numa formação para o exercício do culto e para o exercício do poder administrativo-burocrático-canônico, em detrimento do evangelizador-pastoral. É como um padre diocesano, vestido de batina preta, de uma cidade de periferia do Distrito Federal (que por sinal foi ex-aluno meu!) me disse certa vez quando fui conhecer sua comunidade paroquial: “Padre, como estão as coisas aqui?”, respondeu ele de forma muito reveladora: “Estão ótimas! Aqui eu sou o Papa! É melhor ser padre do que bispo, porque aqui todos me respeitam e o bispo nem sempre é respeitado.”
O que temos são jovens presbíteros com forte formação estético-disciplinar e pouco ético-pastoral. E é justamente neste nó que passam os conflitos com o laicato, cada vez mais desejoso de participar da vida eclesial, e das muitas propostas pastorais diocesanas, e até das iniciativas da CNBB, que ficam emperradas por “pequenos príncipes” mais parecidos com o de Nicolau Maquiavel do que de Saint-Exupéry.
Outro sinal evidente desse sintoma é o esvaziamento das Assembleias dos Organismos do Povo de Deus, sem contar com a quase nenhuma participação do laicato nas Assembleias Gerais da CNBB.
Parece que enquanto a sociedade cada vez mais trabalha para encontrar formas mais participativas, inclusive propondo o debate por um Estado mais democrático, a Igreja deu pouquíssimos passos na direção de uma verdadeira sinodalidade.

IHU On-Line - Com relação à Teologia da Libertação - TdL, o Brasil desponta como um dos seus principais “polos produtores” de reflexão e publicações, com grandes teólogos relevantes nesse debate. Como o senhor vê o papel da TdL no contexto eclesial brasileiro contemporâneo? O discurso está defasado, ainda pensando com categorias sociopolíticas do contexto das ditaduras? Ou há novas perspectivas sendo desbravadas?

Sérgio Coutinho -
 Independentemente do contexto histórico latino-americano geral e brasileiro, em particular, a TdLcentra toda a sua energia reflexiva e, principalmente, prática em dois polos: os pobres e o Reinado de Deus.
Os pobres são o “lugar teológico”. Onde houver pobres, onde houver seres humanos que não tenham “vida e vida em abundância”, Deus estará se revelando, colocando-se ao lado deles por meio de homens e mulheres que denunciarão o “pecado social” que ainda teima em ceifar a vida de muitos dos “pequeninos”.
O Reino e os pobres
Nesse sentido, a TdL ainda tem muito a contribuir não só num “discurso sobre Deus”, mas principalmente sensibilizando os cristãos para dar testemunho daquilo pelo qual Jesus deu sua vida: o Reinado de Deus.
Há uma relação direta entre o Reino e os pobres, pois é deles que pertence “o governo soberano de Deus”. O Reinado de Deus é um reinado de justiça, misericórdia, paz e de vida plena. Este foi o sonho de Jesus e deve ser o sonho de todos e todas que se dizem seus discípulos (as): lutar para a construção de uma sociedade justa e fraterna, no campo e na cidade, e, de modo especial, para os pobres. 

IHU On-Line - Tendo em vista o panorama político, econômico e social que desponta para o Brasil em 2012, quais serão, em sua opinião, as grandes questões que a Igreja deveria abordar neste próximo ano?
Sérgio Coutinho - Sem dúvida nenhuma que a grande questão em que a Igreja poderá contribuir muito está expressa na temática da 5ª Semana Social Brasileira: “Um novo Estado, caminho para uma nova sociedade do bem viver”.
A Igreja quer dar sua contribuição neste ano eleitoral para discutir “Estado para que e para quem?”. O que temos é um Estado a serviço do capitalismo e dos grupos de pressão vinculados às grandes organizações monopolistas. Nesse sentido, a Igreja pretende estimular os movimentos sociais a continuarem nas lutas reivindicativas por políticas públicas que possam atender verdadeiramente aos interesses da sociedade como um todo: educação e saúde de qualidade, valorização do pequeno agricultor, por uma reforma agrária e por uma distribuição de renda mais justa entre outras mais.

IHU On-Line - Em diversos âmbitos, veem-se obstáculos para uma interlocução fecunda da Igreja com a cultura e a sociedade brasileiras contemporâneas. O que se vê são embates ou censuras. Como fomentar um diálogo inter-religioso e intercultural mais maduro no Brasil?
Sérgio Coutinho - De fato, é contraditória a posição da Igreja em muitos momentos. Como disse acima, ela quer contribuir para um debate mais profundo sobre o papel do Estado democrático, mas internamente nunca se viu tanto “verticalismo” e controle da “opinião pública” na Igreja, de modo especial do laicato mais crítico. Todos os anos ela coloca na “pauta do dia” temas de relevância nacional por meio das Campanhas da Fraternidade, mas luta para manter seus privilégios seculares por meio do Acordo Brasil-Santa Sé.
Minha hipótese, e que pode ajudar na resposta à sua pergunta, é a seguinte: a “ideia” de Cristandade que ainda permeia mentes e corações. No entanto, a Cristandade está com seus dias contados, mas muitos “eclesiásticos” (clérigos e até leigos) ainda não se deram conta de que ela já não tem mais sentido nos dias de hoje.
O terceiro violino
Para fomentar um diálogo mais maduro, como você pergunta, é fundamental a Igreja reconhecer que ela não possui mais “poderio territorial” (e isso já faz tempo desde as campanhas de Garibaldi e do Tratado de Latrão em 1929) e “poderio espiritual” da época da Cristandade. É como aquela metáfora: “Durante pelo menos 10 séculos a Igreja foi a regente de uma grande orquestra. Agora ela é chamada a ser o ‘terceiro violino’ dessa mesma orquestra”. Para alguns dentro da Igreja isso é um absurdo e ela precisa lutar por sua “verdadeira” identidade. Para outros, essa é a grande oportunidade da Igreja viver mais próximo do seu mestre e ser fiel ao seu projeto.
É necessário que a Igreja “vá para águas mais profundas”, mergulhe nas profundezas da sociedade contemporânea; sem medo, como fez Paulo e suas “comunidades de base” que conseguiram transformar aquela sociedade. Somente uma Igreja parecida com seu mestre poderá ser uma Igreja convincente.

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